'Poupança privada para velhice é mais válida do que nunca', diz economista



'Poupança privada para velhice é mais válida do que nunca', diz economista

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A demonstrator wearing a banner that reads "Nation of sheeps, Government of wolfs. No more AFP" (Pension Fund Administrators)" shouts slogans in front of the government house during a protest a day after Congress approved a relatively small 2017 wage hike for workers of the public sector, in Santiago, Chile, November 17, 2016. REUTERS/Pablo Sanhueza EDITORIAL USE ONLY. NO ARCHIVES. NO RESALES. ORG XMIT: IA104
Manifestante protesta contra o serviço privado de pensões no Chile, em novembro de 2016
Da FOLHA DE SÃO PAULO
Parte do grupo de especialistas que participou da elaboração da mais recente reforma da previdência chilena, em 2008, e ex-superintendente da AFP (Associação de Fundos de Pensão), o economista Guillermo Larraín, 52, diz que a poupança privada para a velhice, impulsionada pelo modelo do país, é mais válida do que nunca com o envelhecimento da população.
Consultor e acadêmico da Universidade do Chile, ele diz que aumentar impostos para financiar aposentadorias –opção que restaria ao Brasil caso uma reforma não seja feita– gera desemprego.
Folha - O Brasil quer aumentar a idade de aposentadoria, o que fará com que quem queira receber o salário da ativa tenha de trabalhar 49 anos.
Guillermo Larraín - Mas receber 100% do salário é altíssimo. Em geral, o que busca qualquer sistema de previdência é fazer com que a qualidade de vida da fase inativa seja o mais parecida possível com o período de atividade. Supõe-se que há mudanças nos gastos: os filhos já cresceram e, em geral, a renda de que se necessita é mais baixa. Por isso, os sistemas têm como objetivo algo em torno de 70%, 75% do rendimento da ativa.
É uma regra?
É o que se convencionou em todos os países. Mas depende de como a seguridade se encarrega dos gastos com saúde, para que sobrem recursos para outras despesas do idoso.
Qual é o percentual no Chile?
No mercado de trabalho chileno, o que ocorre é que há muita rotatividade entre a informalidade, o desemprego e o emprego formal. E o sistema de capitalização mostra de forma brutal a consequência dessa rotatividade. Porque a maioria não contribui quando está no mercado informal.
Muitos chilenos questionam a gestão das administradoras privadas. Houve má gestão?
O problema do sistema de previdência chileno não é a gestão, nem fraudes. O sistema de pensões se baseia excessivamente na capacidade de acumulação de poupança das pessoas, que é muito débil quando há fragilidade no mercado de trabalho.
O sistema de Previdência chileno ficou fora de moda?
O modelo chileno incentiva que as aposentadorias sejam financiadas com poupança, o que é absolutamente válido, ainda mais com o envelhecimento da população. As pessoas vão viver cada vez mais tempo após se aposentar. E, para financiar esse período extra de vida, vamos precisar de mais recursos. E eles não podem vir só de um imposto sobre o trabalho, como ocorre no sistema de repartição, como o brasileiro.
Por que não?
Porque gera desemprego. O imposto que incide sobre o trabalho no Brasil é muito alto. Além disso, o Estado, na Europa ou no Japão, tem uma dívida implícita gigante, porque os governos terão que suprir a previdência com recursos de impostos.
É preciso gerar recursos de uma fonte distinta, e ela é a poupança das próprias pessoas. O modelo chileno representa a importância de contribuir com poupança própria, e isso segue mais válido do que nunca.
Por que as queixas dos chilenos neste momento?
As pessoas que estão se aposentando agora viveram um período de mercado de trabalho mais fraco nas décadas de 1970 e 1980. A questão é que o sistema tem memória. O que se passou há 40 anos influencia hoje. Essas pessoas pouparam menos.
Parte da discussão da reforma chilena é para que as empresas passem a contribuir. Isso não é um imposto?
Há um acordo político para que o próximo aumento na contribuição previdenciária fique a cargo dos empregadores [5% dos salários]. No sistema de repartição [como o do Brasil], quando se cria um imposto para financiar as aposentadorias, o que se cobra vai financiar as pensões de outra pessoa. No Chile não é um imposto, porque esse recurso vai para uma conta que é sua. O Estado te obriga a poupar.
Estamos preparando uma proposta de reforma, com uma espécie de seguro de longevidade. Propomos que, até mais ou menos os 87 anos, as pessoas sejam atendidas pelo sistema atual e, depois disso, sejam atendidas por um sistema de repartição que funciona como um seguro. 

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