A arte de governar



A arte de governar

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            O processo é sempre o mesmo, entra governo, sai governo, ao menos nos países que adotam as várias formas de democracia. No entanto, o governo que sai diz ter procurado fazer o melhor possível, dentro dos limites a que teve de se sujeitar; o que entra culpa o anterior e afirma categoricamente que não repetirá os erros do antecessor. Nesse jogo de empurra-empurra, há sempre um lado que sofre: o dos governados. Evidentemente, há poucos “governados” privilegiados que sabem se aproveitar dos desmandos e deslizes dos maus governadores, mas constituem ínfima minoria, no Brasil e em outros países mundo afora.
            Como evitar que este pernicioso processo de alternância de governos ineficientes se perpetue? No contexto brasileiro, os saudosistas da ditadura militar ou as novas gerações que se deixam fascinar pelo carisma de Hitler e Mussolini (figuras históricas que estão sempre em voga, na mídia e nas livrarias de muitos países) evocam governos fortes e duradouros, não sujeitos às pressões do voto popular ou ao controle exercido pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado. Desejam, portanto, um “pai-herói” que vele por nós e decida o que nos caberia decidir, em quanto adultos e vacinados. Por outro lado, quando nos deixam decidir, qual é a nossa real capacidade de orientar o destino da nação? Pouco, muito pouco infelizmente, porque as pressões exercidas por forças muito mais poderosas que a do simples cidadão que deposita o seu voto nas urnas impedem e sempre impedirão que determinados fatores decisivos na estrutura socioeconômica efetivamente mudem. Há necessidade ainda de elencar tais forças poderosas? Creio que não, mas de qualquer maneira claramente se concentram nos grupos midiáticos organizados, nos grandes grupos educacionais que dominam a instrução das crianças e adolescentes de classe média, na indústria de entretenimento que não educa, mas apenas “diverte”, nos megainvestidores internacionais, que nada produzem, mas apenas lucram com o improdutivo, em certas indústrias da alta tecnologia que nos impingem aparelhinhos tão caros quanto inúteis e por aí afora, constituindo uma lista que de tão longa se torna enfadonha.
            Que remédio? Sinceramente, afirmar que aperfeiçoamos a nossa democracia e que chegamos a um estágio de maturidade, como querem alguns, parece-me um raciocínio tão otimista quanto ingênuo, não corroborado pelos tristes espetáculos  a que assistimos cotidianamente de intolerância e de retorno de forças retrógradas, no Brasil (vide a ascensão de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto), nos Estados Unidos (com o triunfo de Trump) e na Europa (líderes populistas e xenófobos da França, Alemanha, Itália e Espanha). Na verdade, chegou-se, isto sim, ao fundo do poço da democracia representativa e ao desmantelamento do “welfare state” da democracia social. Tudo o que foi concedido às classes menos abastadas nos anos 60 e 70 será aos poucos retirado, pois não há mais dinheiro em caixa e quem concedeu tais “privilégios” ou já morreu ou está há muito longe da cena pública, não podendo mais ser responsabilizado pelos seus atos.
            A única forma de governo que poderia se não resolver, mas ao menos atenuar os males provocados pela falência do sistema democrático é o “autogoverno”. Quanto mais as pessoas se conscientizarem de que é preciso “cuidar bem do próprio quintal”, não delegando tudo ao síndico do condomínio ou ao Presidente da República, menos precisaremos de governos constituídos e das dispendiosas e ineficientes estruturas burocráticas a eles associados.
             Mas quem vai nos conscientizar, se a educação pública (ou a oferecida por escolas particulares) não conscientiza, isto é, se não forma cidadãos conscientes de seus direitos e, principalmente, de seus deveres? Resposta: nós mesmos. Se, por exemplo, cada membro das pequenas elites com alto nível educacional dedicasse duas ou três horas do seu tempo livre para educar os que nada sabem e os que nada têm, num futuro não muito distante a situação mudaria, de modo definitivo e não sujeito ao empurra-empurra dos governos. Outro papel importantíssimo cabe à educação que damos aos nossos filhos, em nossas casas, ensinando-lhes o respeito e a tolerância, isto é, preparando-os para o convívio social.
            Evidentemente, até que se chegue paulatinamente à “substituição” de governos constituídos e centralizados por núcleos ou associações de simples cidadãos levará muito tempo, mas constituirá um processo de “reeducação” das sociedades que deixará marcas indeléveis. Evidentemente, assistiríamos a um “desmonte” progressivo de grandes centros habitacionais que precisariam passar por um processo de adequação bastante complexo.
            Há os que argumentam que para pôr em prática atitudes corajosas (utópicas?) como as descritas brevemente acima, seria preciso um retorno à Idade Média, ou a um período “pré-cientifico” e, sobretudo, “pré-tecnológico”. Não creio, porém, que se deva perder e renegar as conquistas que a ciência obteve a partir de Galileu e Newton, mas tão somente que elas devam ser redimensionadas, deixando apenas de atender aos interesses de grandes grupos industriais que nos “obrigam” a usar computadores e smartphones. Do mesmo modo, a quantidade de “drogas” (leia-se “remédios”) inúteis que as indústrias farmacêuticas nos impingem constituem outra faceta tenebrosa da apropriação indébita feita por gananciosos das autênticas conquistas da medicina e da farmacologia. A tudo, porém, assistimos resignados e conformados, esperando que o próximo governo nos diga que é perfeitamente inútil combater resfriados com compridos ou xaropes!
            Assim como os artesãos medievais eram também “artistas”, à medida que vagarosamente extraíam da matéria prima bruta verdadeiras “obras de arte”, assim também precisamos começar a colher os frutos de nossas decisões tomadas com consciência, exercendo a arte de governar, seja no que diz respeito à limpeza das ruas ou à segurança pública, seja no que concerne à educação dos nossos filhos, para que pouco a pouco fiquemos menos sujeitos a “pais heróis” ditadores ou a legítimos governos eleitos pelo povo que, na verdade, governam em causa própria, sempre realimentando sistemas opressivos, quer se apresentem como tiranos, quer se apresentem como “a voz do povo”.

 Sérgio Mauro é professos da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

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