Arma falsa vira dor de cabeça para a polícia



Arma falsa vira dor de cabeça para a polícia

POR 
, da GLOBO

Rendição. Um policial revista o assaltante que manteve passageiros de um ônibus reféns por quase uma hora, perto da Ponte Rio-Niterói - Gabriel de Paiva

Número de réplicas apreendidas em três anos passa de 4.600; ladrão usou uma para fazer reféns em ônibus

RIO - As imagens de passageiros feitos reféns dentro de um ônibus logo remeteram ao desfecho trágico do 174, quase 17 anos atrás. O acesso à Ponte Rio-Niterói pela Avenida do Contorno ficou bloqueado por quase uma hora, em plano rush da manhã. As negociações para a rendição do bandido mobilizaram equipes da PM e da Polícia Rodoviária Federal (PRF). No fim das contas, descobriu-se que o assaltante responsável por toda a confusão, John Lenon Silva Barbosa, de 25 anos, usava uma pistola falsa. 

Mais um caso que expõe um problema da segurança pública: nos últimos três anos, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio, foram apreendidas com criminosos 4.605 réplicas de armas.

A comercialização de simulacros de armas, muito parecidas com as verdadeiras, é proibida por lei desde os anos 1990. Nem mesmo a venda de revólveres de brinquedo é permitida. No entanto, a produção dessas réplicas não para. De acordo com o ISP, em 2014, foram apreendidas 1.589. Tanto em 2015 quanto no ano passado, a quantidade foi exatamente a mesma: 1.508.

— Se o estado não consegue controlar sequer a circulação das armas reais, desviadas de empresas privadas e corporações de segurança, o que dizer das armas falsas? É até ingênuo pensarmos em um controle eficiente — criticou o sociólogo Ignacio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj.

Recentemente, alguns casos de uso de armas falsas tiveram grande repercussão. Este mês, duas jovens — apelidadas de “bandivas” — apareceram em redes sociais ostentando fuzis e pistolas. Investigadas pela Polícia Civil, elas se apresentaram à 21ª DP (Bonsucesso) e afirmaram que exibiam réplicas. Moradoras do Complexo da Maré, as mulheres alegaram que tinham se fantasiado de criminosas para um baile de carnaval.

Em outubro do ano passado, outros dois casos chamaram a atenção. Ao fim de uma tentativa de assalto a uma agência bancária em Vila Isabel, policiais apreenderam uma pistola de brinquedo. No mesmo mês, três homens e dois adolescentes foram detidos por uma equipe do 20º BPM (Mesquita) após roubarem passageiros de um ônibus com imitações de armas de fogo.
No caso desta terça-feira, o passageiro Felipe Roseano, um dos últimos reféns a sair do ônibus da linha 409 (Alcântara-Niterói), percebeu que a PRF fazia uma blitz na Avenida do Contorno e, com um braço para fora de uma janela, sinalizou que estava ocorrendo um assalto. Ele disse que, durante a negociação entre policiais e o bandido, percebeu que a arma era de plástico. A partir daí, começou a participar da conversa com John Lenon.
— No começo, foi bem assustador. Ele falou que queria celulares e carteiras de todo mundo, disse que assinaria um termo de liberdade condicional hoje (ontem) e que não tinha dinheiro para alimentar os filhos. Eu via seu desespero. Ele só ficou agressivo quando os policiais avisaram que iriam entrar. Falei para o rapaz que sabia que a arma era de brinquedo, e ele me respondeu “‘cara, eu já perdi, eu sei” — contou Roseano.
Mesmo dominada pelo bandido, a auxiliar administrativa Janete Schimidt, de 50 anos, também manteve a calma durante toda a ação. Deitada entre os bancos, sem saber que a arma apontada para sua cintura era falsa, ela conversava com John Lenon para tentar acalmá-lo. A passageira só perdeu a paciência quando soube, já na 76ª DP (Centro de Niterói), onde o caso foi registrado, que o assaltante usava uma réplica.
— Deu vontade de socar a cara dele quando descobri que era uma arma de brinquedo. A vida é mesmo uma brincadeira na mão desses caras — desabafou Janete.
Ela contou que, quando o ônibus foi cercado por policiais, pouco antes das 9h, John Lenon exigiu a presença da imprensa, da mulher e de seus filhos para se entregar. O assaltante liberou os 30 passageiros aos poucos. Ainda segundo a auxiliar administrativa, ele tinha a esperança de chegar até a Ponte Rio-Niterói e fugir pelo mar.
Morador do Morro da Coruja, em São Gonçalo, John Lenon estava em liberdade condicional desde maio de 2015. Ele já tinha três passagens pela polícia. Em maio de 2011, foi preso em Campos por receptação. Em setembro do mesmo ano, PMs o capturaram após praticar um roubo, durante o qual fez um disparo de arma de fogo. Em 2012, voltou a ser preso, por assalto a mão armada em um ônibus.
Pouco antes de John Lenon anunciar o assalto no 409, um outro coletivo, da linha 143 (São Gonçalo-Niterói), foi roubado no mesmo trecho da Avenida do Contorno. Um homem armado pegou R$ 300 do caixa e a carteira de um passageiro. E, também pela manhã, uma bala perdida atingiu de raspão uma mulher dentro de um ônibus na Avenida Prefeito Sílvio Picanço, em Charitas, Niterói. Isso aconteceu no momento em que PMs faziam uma operação contra o tráfico em favelas da região.

Da GLOBO

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