Como colocar um bilionário na cadeia? Os americanos sabem



Como colocar um bilionário na cadeia? Os americanos sabem

Espírito animal: morar em apê na Quinta Avenida não vai evitar cair no laço dos cowboys da Justiça americana (//iStock)
Alô, malditos da Blessed. Ter um promotor federal da Justiça dos Estados Unidos no pé é pior que cerveja quente e boi doente. Quanto às suas mulheres…
Por Vilma Gryzinski
28 maio 2017
Revista VEJA

Jatinho no hangar, apartamento na Quinta Avenida? Uma porcaria de indenização e a transposição de bens para uma feitiçaria financeira chamada Blessed Holdings? E ainda rindo da nossa cara?

Seus caríssimos e competentíssimos advogados já devem ter avisado que os Estados Unidos não são um refúgio seguro. Com certeza estão se movimentando a milhares de dólares por hora. Como o dinheiro teve origem nos nossos bolsos, isso é um detalhe.

Mas dá um certo prazer relembrar os bilionários americanos que foram para a cadeia por crimes comparativamente insignificantes diante do que os reis do gado fizeram, não só no Brasil como nos Estados Unidos.

E tem alguns americanos bastante aborrecidos ao descobrir que o ataque ao mercado da carne feito pelos irmãos açougueiros foi com montanhas de dinheiro – nosso, só para lembrar – obtido em troca de propinas.

É o tipo da coisa que desperta o espirito animal dos gringos. Falando à Bloomberg, o diretor de um grupo pecuarista de Montana, Bill Bullard, explicou direitinho os motivos: “Não apenas a JBS fez as aquisições com empréstimos obtidos através de propinas como invadiu o mercado americano e tirou da competição investidores americanos potencialmente interessados nesses ativos”.

DEUSA DA COZINHA

É também o tipo da coisa que põe promotor federal na linha. E promotores federais americanos têm uma certa tendência a colocar bilionários flagrados em ilegalidades no sistema prisional.

Às vezes, até com um certo exagero. O caso de Martha Stewart é um exemplo. Ela estava no auge de seu império de produtos para casa e cozinha, ancorado em dois populares programas de televisão.

A deusa de todas as coisas domésticas foi acusada de receber informação privilegiada de seu gerente de investimentos. Mandou vender uma mixaria de 200 mil dólares em ações de uma empresa enrolada. Evitou uma perda de 45 mil dólares, mas acabou condenada, em 2004, a nove meses em regime fechado e dois anos de monitoração, dos quais cinco meses com tornozeleira eletrônica.

O promotor do caso foi Preet Bharara, que infundiu o terror durante seu período à frente da Promotoria Federal do Distrito Sul de Nova York. Processou mais de 100 pessoas do mercado financeiro, muitas vezes com um ânimo considerado agressivo demais.

O caso mais estrondoso de Bharara, que é indiano naturalizado, da religião sikh, foi contra Raj Rajatranam, criador de um fundo de investimentos chamado Galleon Group. O bilionário, nascido no Sri Lanka, cumpre desde 2011 pena de onze anos de prisão por diversos crimes financeiros. As multas passaram de 150 milhões de dólares. o Galleon Group foi a pique.

O PAI, O GENRO, O SOGRO

Como os promotores federais são nomeados pelo presidente, Bharara teve que sair depois da eleição de Donald Trump. Mas tem uma carreira política promissora no Partido Democrata pela frente, como é bastante comum.

O atual governador de Nova Jersey, Chris Christie, foi o promotor que colocou na cadeia o pai de Jared Kushner, o genro de Trump atualmente assessor do sogro. Charles Kushner – fortuna de 1,8 bi – pegou dois anos por doações ilegais de campanha, evasão fiscal e intimidação criminal do cunhado, que estava cooperando com a justiça contra ele (contratou uma prostituta para atraí-lo, gravou o encontro e mostrou a gravação para a irmã).

O sogro de Chelsea Clinton, que provavelmente por interferência divina não retomou o lugar de primeira filha, também já se lascou todo. Ed Mezvinsky estudou direito e ciências políticas e fez carreira no Partido Democrata como defensor dos direitos do consumidor.

Tentou ser promotor e senador. Acabou eleito deputado por Iowa. Fez trambiques espetaculares, usando um esquema tipo pirâmide para capturar 10 milhões de dólares em investimentos podres. Ele e a mulher, que também foi deputada, eram muito amigos e financiadores do casal Clinton.

Mezvinsky alegou sofrer de doença bipolar quando foi pego com a mão na roubalheira. Não colou. Cumpriu cinco anos de regime fechado. Saiu em 2008, ainda enrolado no pagamento dos ressarcimentos às vítimas de seus trambiques.

RICÕES EM CANA

O caso que virou um marco da Justiça americana na punição de bilionários criminosos foi o de Michael Milken, que veio à tona no fim dos anos 80. Ele foi o gênio dos investimentos que praticamente inventou o mercado dos títulos de alto risco – ou podres.

Energizou o mercado, mas também cometeu uma lista de delitos financeiros de impressionar até em outras latitudes. Fez um acordo de leniência para pegar apenas dez anos de prisão e multa de 600 milhões de dólares. Comutou a pena em dois anos por colaborar com a justiça, entregando outros gigantes do mercado financeiro. É mais ou menos a história contada no filme O Lobo de Wall Street.

A justiça americana praticamente inventou o conceito de acordo de leniência em todas as esferas criminais. Também desenvolveu vários sistemas para pegar políticos, poderosos e bilionários, inclusive com a criação de ”penitenciárias de colarinho branco”.

Sem risco de convívio com criminosos violentos, que além das pressões habituais podem chantagear os bilionários, e em instalações corretas, embora espartanas se comparadas a apartamentos de 20 milhões de dólares na Quinta Avenida, fica mais fácil mandar os ricões para a cana dura.

CRÁPULAS SEM BANDEIRAS

Num trabalho extraordinário, policiais federais, promotores e juízes brasileiros também estão desenvolvendo métodos efetivos que recolheram para o regime fechado nomes do mais alto escalão – e do baixo calão, cada vez que nos lembramos deles.

Esta nova realidade é praticamente a única coisa que nos dá algum alento diante do nojo, da humilhação e da raiva em que fomos jogados pela asquerosa traição dos mais conhecidos políticos do Brasil.

Só para ficar na última eleição: mais de 51 brasileiros confiaram seus votos a um dos traidores; 54,5 milhões votaram na outra. Os dois integrantes da Crápulas Sem Bandeiras, a dos políticos criminosos independentemente da estirpe partidária, não vão se safar se depender da honestidade e da eficiência dos bons integrantes do Judiciário brasileiro.

Será que os promotores americanos vão deixar os colegas brasileiros passar à frente deles? Será que uma competição virtuosa para ver quem coloca mais crápulas na cadeia não vai atiçar os ânimos deles?

Os americanos já partem de um terreno muito vantajoso: sabem tudo. Inclusive exatamente qual é a composição da Blessed. Os sócios ocultos podem fugir, mas não podem se esconder.

Revista VEJA

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