O inalterado e inalterável discurso de populistas e tiranos



O inalterado e inalterável discurso de populistas e tiranos

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Leio nos jornais que Donald Trump, em mais uma de suas bravatas, ameaça jornalistas constantemente, assim como o seu arquirrival Maduro, na Venezuela. Talvez Trump não chegue a mandar fechar jornais ou canais televisivos, como o venezuelano, mas, na realidade, o seu comportamento difere pouquíssimo do “homem de bigodes” sul-americano.

Uma simples pincelada em qualquer livro sério de história geral nos mostra que os comportamentos, assim como certas expressões idiomáticas pronunciadas em diferentes línguas e, sobretudo, certos tons de ameaça e de demonstração de força e de “dureza” (a dos tough guys) se arrastam pela linha cronológica do tempo como serpentes sempre prontas para dar o bote. São tiranos e tiranetes, homens e mulheres, demagógicos defensores do povo que já levaram nações aparentemente pacíficas e ordeiras a guerras cruéis e sangrentas.

Ao longo da história, portanto, sempre houve os que souberam enganar, tomando o poder com a força bruta ou elegendo-se por meio de processos democráticos, fraudulentos ou não, talvez até manipulados ou “orquestrados” pela mídia ou por lobistas. Se, todavia, sempre houve os astutos que souberam ludibriar, é porque sempre houve (e sempre haverá, infelizmente) os que se deixaram ludibriar. Por quê?

Talvez seja um problema universal de desinformação, mas como explicar, sobretudo nos países desenvolvidos, o enorme acesso a notícias e comentários, facilmente obtidos por meio da internet e das redes sociais? Talvez o problema resida no tipo de informação que chega às pessoas, muitas vezes banalizada, direcionada ou até parcial e mal-intencionada. Talvez, mais propriamente, a responsabilidade esteja nas mãos de quem possui o dever de informar e instruir, isto é, basicamente, todos os tipos de jornalistas ou professores.

Não me parece, porém, satisfatório liquidar a questão dessa maneira. Mais do que responsabilizar jornalistas e professores é preciso atentar para o fato de que tanto os profissionais da mídia como os profissionais do ensino foram “formados” (ou “desinformados”) pelo mesmo tipo de instrução, pública ou particular, que geralmente é ministrada em todas as escolas do mundo, de uma escola da periferia de São Paulo a Harvard. Trata-se, de maneira bastante sucinta e sem pretender esgotar o polêmico assunto, de uma escola “conteudista”, em que os professores são orientados a cumprir um programa que supostamente daria conta de todo o conhecimento humano, tanto nas disciplinas de humanas como nas que se referem às “ciências naturais”. Grosso modo, e com as devidas exceções que, por serem exceções, têm pouca força, despejam-se sobre as crianças, adolescentes e jovens séculos de história, centenas de filósofos e escritores, milhares de noções sobre a configuração da Terra e do cosmo, além de milhares de cálculos, teorias, fórmulas e quejandos. Quase nunca tais informações agem sobre a vida destes jovens, ajudando a formar consciências, ensinando a discernir, ponderar, tolerar e, sobretudo, a duvidar. Sim, duvidar, porque é preciso usar todo o conhecimento sobre o ser humano e sobre o mundo que nos cerca para ensinar os “educandos” a duvidarem do que ou de quem se apresentar como a solução para todos os males.

Evidentemente, caso os canais de informação e os sistemas de ensino funcionassem como “disseminadores de dúvidas”, mais do que de certezas, talvez não houvesse mais tantos tiranos e demagogos, geralmente péssimos administradores do patrimônio público, mas hábeis desviadores de recursos e verbas para os próprios bolsos. Quem aprender a duvidar não necessariamente aprenderá também a não acreditar em mais nada, caindo num ceticismo infrutífero. Aprender a duvidar a partir da leitura dos grandes clássicos ou do estudo aprofundado da natureza que nos cerca, ou seja, sem esgotar tudo em fórmulas ou técnicas, significa também inculcar na mente o domínio das próprias paixões, o respeito pela diferente, multifacetada e variegada realidade que procura sempre nos mostrar o absurdo da homogeneização forçada ou da defesa da supremacia de uma etnia ou de uma cultura, além de ajudar a ministrar a sabedoria própria de quem respeita o semelhante por ter plena consciência de que se encontra na mesmíssima condição existencial do outro.

Enfim, não basta também aprender com os erros da história e com os enganos cometidos no passado. Os seres humanos definitivamente não aprendem com as lições do passado pelo mesmo motivo que uma criança ou um jovem não se conscientizam quando sobre eles “despejamos” conteúdos. É preciso vivificar e fazer agir entre nós tanto os ensinamentos dos grandes clássicos da filosofia e da literatura, como também o conhecimento do mundo natural que nos cerca e dos eventos históricos que perpassaram pela humanidade. Só assim evitaremos um futuro Donald Trump (ou Nicolás Maduro)!

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

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