"A Revolução Russa e a Imprensa"



CEDEM
Opúsculo distribuído por Astrojildo Pereira, assinado com o pseudônimo Alex Pavel
"A Revolução Russa e a Imprensa"

Texto escrito por Astrojildo Pereira, entre 1917 e 1918, distribuído em forma de opúsculo
[11/10/2017]




Dando prosseguimento a homenagem à Revolução Soviética, prestada pelo CEDEM e pelo Fundo Astrojildo Pereira, custodiado no CEDEM, nesta segunda semana publicamos o opúsculo, ou seja, um livreto, escrito por Astrojildo Pereira e publicado com o pseudônimo Alex Pavel entre 25 de novembro de 1917, um mês após a Revolução de Outubro, e 4 de fevereiro de 1918. O opúsculo integra um conjunto de textos escritos por Astrojildo em defesa da Revolução Soviética. 

A Revolução Russa e a Imprensa
Alex Pavel (pseudônimo de Astrojildo Pereira)(março de 1918)
As páginas que formam este folheto foram escritas em dias espaçados, no intervalo de tempo contado de 25 de novembro do ano findo até 4 de fevereiro último. Algumas delas foram enviadas, em forma de cartas, aos jornais, rebatendo injúrias ou deslindando confusões. Reunidas e coordenadas nesta brochurinha, creio valerão como um documento e um protesto mais duradouro contra as calúnias e imbecilidades de que se tem servido a nossa imprensa nas apreciações sobre a obra dos maximalistas russos...
A Revolução Russa e a imprensa carioca
Jamais, jamais se viu na imprensa do Rio tão comovedora unanimidade de vistas e de palavras, como, neste instante, a respeito da Revolução Russa. Infelizmente, tão comovedora quanto deplorável, essa unanimidade toda afinada pelas mesmíssimas cordas da ignorância, da mentira e da calúnia. Saudada quando rebentou e deu por terra com czarismo dominante, a Revolução Russa é hoje objeto das maldições da nossa imprensa, que nela só vê fantasmas de espionagem alemã, bicho perigoso de não sei quantos milhões de cabeças e de garras.

Provavelmente os nossos jornais desejariam que se constituísse, na Rússia, sobre as ruínas do Império, uma flamante democracia de bacharéis e de negociantes, como a que tem por presidente o sr. Wilson, ou como esta nossa, presidida pela sabedoria inconfundível do sr. Wenceslau. 

A caída do nosso Império e a implantação desta nossa República, sem gota de sangue, com uma simples e vistosa procissão na rua, parece ter-se tornado, aos olhos dos nossos jornalistas, o padrão irrevogável pelo qual se devem guiar as revoluções antidinásticas que se forem efetuando pelo mundo. 

Como a Revolução Russa, ao contrário disso, tem tomado um caráter profundo, de verdadeira revolução, isto é, de transformação violenta e radical de sistemas, de métodos e de organismos sociais, levada para diante aos empurrões, pelo povo, pela massa popular, eis que os nossos jornais desabam sobre ela, de rijo, toda a fúria da sua indignação democrática e republicana. 

É que os nossos jornais partem dum ponto de vista errado, supondo que o povo russo tem a mesma mentalidade do povo brasileiro de 89, que assistiu, "bestializado", à proclamação, por equívoco, desta bela choldra que nos desgoverna.

Não: o povo russo é um povo de memoráveis tradições revolucionárias, cuja mentalidade, formada através das mais ásperas e mais empolgantes batalhas libertárias destes últimos cem anos, não pode satisfazer-se com o regime falsamente democrático da plutocracia, regime de espoliação em nome da igualdade perante a lei, de embuste e burla eleitoral e de parlamentarismo oco, palavreiro, desmoralizado, safadíssimo... 

Já em 1869, há quase meio século, escrevia Bakunine, um dos grandes precursores da atual revolução e que se achava então na Suíça, exilado:
"Eles (os revolucionários russos) querem nem mais nem menos que a dissolução do monstruoso Império de todas as Rússias, que, durante séculos esmagou com o seu peso a vida popular, não conseguindo, porém, extingui-la de todo. Eles querem uma revolução social tal que a imaginação do Ocidente, moderada pela civilização, apenas consegue pressentir". "Um pouco mais de tempo... e então ver-se-á uma revolução que sem dúvida ultrapassará tudo quanto se conhece até aqui em matéria de revoluções".
"Agentes alemães"
Uma das teclas mais batidas pelas ilustríssimas gazetas do Rio, quando se referem à Revolução Russa, é a de que os bolcheviques, em geral, e Lenin em particular, são agentes do governo alemão. Ora, há em tudo isso, a par do evidente contra-senso, um crasso desconhecimento dos fatos.

Lenin é um velho socialista militante de mais de vinte anos, e como tal ferozmente perseguido pela autocracia moscovita, mas sempre o mesmo homem de caráter indomável e intransigente. Como pode, pois, entrar nos cascos de alguém que um homem destes, precisamente quando vê os seus caros ideais em marcha, a concretizar-se numa soberba floração de energia vital, vá vender-se a um governo estrangeiro? Lenin, se quisesse vender-se, algum dia, bastava esboçar o mais leve sinal e o governo de S. Petersburgo lhe rechearia os bolsos fartamente, vencendo pelo dinheiro o inimigo implacável. Não precisava esperar através de anos inteiros de perseguições e sofrimentos, que a revolução social de seus sonhos se iniciasse para entregar-se ao marco prussiano, como um vulgaríssimo trampolineiro, como um jornalista qualquer destes que abundam na imprensa desta terra. 

Os cascos do mais espesso jumento repelirão, por demasiada, tal sandice... Aos nossos jornalistas, a honra de a fecundarem!

E grande honra, essa, que a Revolução, ao extravasar-se da Rússia, ao espraiar-se pela Europa, ao atravessar os oceanos e ao vir sacudir-nos da bestialização republicana, saberá, de certo, regiamente e merecidamente recompensar...
Incoerências e imbecilidades
Interessantíssimo, o artigo estampado há dias no Imparcial, sobre a situação russa. Notório acérrimo defensor da "ordem social", o Imparcial serve, assim, valentemente a causa do Estado, de que é um dos esteios e na qual tem empregado sérios interesses. E tanto mais valentemente quanto é certo que, brigando contra os fermentadores de revolta, briga também contra a lógica e contra a verdade dos fatos. 

Exemplo flagrante disso é o trecho seguinte do citado artigo:
"A Rússia era uma nação governada pelo knut. Sacudido o jugo dos Romanov, entregou-se a embriaguês da emancipação, com todos os seus excessos. Falta-lhe a cultura moral necessária para disciplinar a liberdade sob autoridade e para compreender que um governo acatado e leis obedecidas são condições indispensáveis à existência de uma nação livre. O espírito militar extinguiu-se no exército, destruindo-lhe a força de agressão, e até o estímulo de resistência".

Eu sublinho as palavras que me parecem mais comprometedoras...
Acho estupendo que se julgue a emancipação capaz de causar embriaguez. Isso é querer compará-la ao álcool, ao vinho, à vodca, que embriagam aos viciados (permanentes ou momentâneos, pouco importa), isto é, aos escravos da bebida. Ora, um escravo, se me não engano, é tudo quanto há no mundo de menos emancipado. Não, a emancipação não pode jamais embriagar. Ela é água límpida, refrigerante, saudabilíssima...

Não menos estupendo acho eu o conceito de disciplinar a liberdade sob autoridade. Essa é a linguagem de todos os despótas de todos os tempos, isto é, dos grandes inimigos da liberdade. 

Liberdade disciplinada é liberdade limitada, cortada, imposta, — de onde resulta deixar de ser liberdade. E não falemos em liberdade sob a direção da autoridade... 

A autoridade, por sua origem, por sua função essencial e formal, por seu papel histórico, representa precisamente e concretamente o princípio oposto ao princípio da liberdade. 

Pode dizer-se que a autoridade e a liberdade são os dois antípodas da história da humanidade. Esta mesma história prova-o abundantemente: toda e qualquer conquista de liberdade implica necessariamente em diminuição de autoridade. 

Autoridade é força manejada pelo arbítrio de alguns: é violência, é compressão, é brutalidade, é imposição — tudo quanto há de menos liberdade.

O espírito militar extinguiu-se no exército russo...: é verdade, e felizmente, muito felizmente. Eu sou antimilitarista e alegro-me imenso com tão auspicioso acontecimento. E desejo ardentemente que o mesmo aconteça na França, na Inglaterra, na Itália, na Alemanha, na Áustria, nos Estados Unidos, no Brasil... no mundo todo. 

O que, porém, não posso compreender, por mais esforços que faça, é que o Imparcial, que combate o espírito militar existente no povo alemão, como um perigo universal, entenda que o desaparecimento desse espírito militar, na Rússia, constitui um mal. De duas uma: ou o espírito militar (ou militarismo, que tudo é um) é um bem, ou é um mal. 

Se é um mal (como afirmam os aliados, referindo-se à Alemanha), o seu desaparecimento, ou a sua não existência, num país qualquer (como é o caso da Rússia, segundo afirma o Imparcial) constitui um motivo de felicidade inestimável, e deve, assim, ser louvado por toda a gente, amiga da humanidade e da liberdade. 

Se ao contrário, o espírito militar é um bem, ele deve ser louvado também na Alemanha, que, incontestavelmente, é a pátria mestra em militarismo, mestra cujos exemplos devem ser seguidos por quantos entendem que o espírito militar é um bem. 

Combater o militarismo tedesco e, ao mesmo tempo, louvar e incitar (o que têm feito todos os aliados, inclusive agora o Brasil, por desgraça nossa) o espírito militar no resto do mundo, eis uma incoerência que eu não posso compreender, por mais esforços que faça... Enfim, bem pode ser que seja eu o imbecil!
Divergência fundamental
"É evidente que a concepção dos maximalistas sobre a liquidação da guerra diverge muito da de Berlim e Viena". Eis o que afirmava a Agência Havas, em telegrama de Paris, datado do dia 7 de dezembro último e aqui publicado, pelos jornais seus clientes, ao dia seguinte. É uma informação absolutamente insuspeita, pois que parte duma agência francesa oficiosa, cujos despachos são diretamente controlados pelo governo da França.

Ora, se "é evidente" a divergência entre os maximalistas e os governantes de Berlim e Viena, a respeito da liquidação do conflito guerreiro, isso quer dizer, nem mais nem menos, que os maximalistas pensam e querem que a guerra termine dum modo diverso do modo que pensam e querem os governantes alemães e austríacos. 

Divergir é pensar e querer a mesma coisa de maneira diferente, e quando duas pessoas, ou grupo de pessoas, ou duas coletividades, têm firmado sobre um mesmo assunto, um pensamento e uma vontade divergentes, isso significa que não existe acordo entre as duas partes. 

É o que se dá agora entre Berlim e Viena, dum lado, e Petrogrado, do outro: entre os maximalistas e os governos tedescos não existe concordância de opinião sobre a guerra e a paz. Nem poderia jamais existir concordância entre uns e outros: os maximalistas, socialistas revolucionários batendo-se por um programa "máximo" de reivindicações populares; os imperantes austro-alemães, a personificação culminante da autoridade, da tirania, da opressão, espoliação das massas populares. 

O programa essencial de todos os partidos socialistas consiste precisamente no combate aos instrumentos e aos partidos de tirania e espoliação. Os maximalistas, que formam uma fração dos socialistas russos, são por sua própria natureza, especificamente inimigos de todos os governos monárquicos e plutocráticos, da Rússia e de fora da Rússia, portanto inimigos naturais dos governantes de Berlim e Viena. E é daí que resulta a divergência radical entre uns e outros, sobre a guerra e a paz.

Ora, se isso é verdade, se isso constitui um fato evidente, como conceber que os maximalistas sejam agentes alemães, agindo por influxo do marco, prussiano, traidores da pátria e outras coisas não menos feias?
"Alteração" maximalista é "evolução" aliada...
"Petrogrado, 23 [de dezembro] (Havas). Discursando nesta capital a respeito das negociações de paz com os impérios centrais, o sr. Trotski disse:
"A Revolução Russa não derrubou o czar para cair de joelhos ante o kaiser, implorando paz. Se as condições oferecidas não forem conformes aos princípios da revolução, o partido maximalista recusará assinar a paz. Fazemos guerra a todos os imperialismos".

Como se vê, este telegrama, da mesma insuspeitíssima (no caso) agência, veio confirmar, com as próprias palavras de Trotski, os comentários que o telegrama do dia 7 me sugerira.

Na sua edição de 24 de dezembro, A Noite, desta cidade, assim se exprimia:
"O programa de paz dos maximalistas, apresentado à conferência (de Brest-Litovski, inaugurada nesse dia), podia ser aceita, com pequenas alterações, por todos os países aliados. Nunca poderá ser aceito, porém, pelos impérios centrais"... "Estas condições (as apresentadas pelos russos) são inteiramente inaceitáveis pelos impérios centrais, porque elas repousam sobre bases democráticas contrárias em absoluto, ao imperialismo que domina em Berlim e Viena".

É outro testemunho insuspeitíssimo, contra conceitos próprios anteriormente expendidos e confirmando integralmente o que eu dissera nos comentários do dia 9...

Uma observação curiosíssima. Referindo-se às condições de paz expostas simultaneamente pelo sr. Lloyd George, no Congresso dos Sindicatos Operários Ingleses, e pelo sr. Wilson, na mensagem ao Congresso americano, O Imparcial de 10 de janeiro último estampa entre outras coisas de maior interesse, esta:
"Alguns órgãos da imprensa aliada, por um excesso de zelo que prejudica em vez de favorecer a causa comum, nos comentários bordados sobre essas solenes declarações, procuram mostrar que a Entente não modificou uma linha dos seus propósitos anteriormente assentados sobre a guerra.

Basta reler com atenção o discurso do primeiro ministro inglês e a mensagem ao Congresso Americano, para ver que os aliados evoluíram no seu programa"...

Ao ser divulgado o programa de paz apresentado pelos maximalistas, A Noite, a 24 de dezembro, afirmava que tal programa "podia ser aceito, com pequenas alterações, por todos os países aliados". Realmente, três semanas depois, a Inglaterra e os Estados Unidos, e com eles os demais aliados, aderiram ao programa russo. Aderiram, é claro, com alterações, não pequenas, mas grandes, e alterações da parte deles aliados, como confessa O Imparcial, quando diz, com deliciosa candura, que "os aliados evoluíram no seu programa"...
A mensagem de Wilson
A mensagem do presidente Wilson, aqui publicada no dia 9 de janeiro, é que veio entupir de vez as goelas dos miseráveis escribas de penas permanentemente voltadas à calúnia. Eu não resisto ao desejo de transplantar para estas páginas os trechos da mensagem em que se toca nos russos e na conferência de Brest-Litovski. 

Vale a pena dar-lhes relevo:
"Os representantes da Rússia em Brest-Litovski apresentaram não só uma exposição perfeitamente definida e clara dos princípios sobre os quais eles estariam dispostos a concluir a paz, mas também um programa igualmente nítido e preciso sobre o modo concreto desses princípios poderem ser aplicados"... "As negociações foram quebradas. Os representantes da Rússia eram sinceros e como tais não podiam seriamente dar incremento", etc... "Os representantes russos têm insistido, muito justa e sabiamente e dentro do espírito da moderna democracia, em que as conferências que eles têm celebrado com os estadistas teutônicos e turcos deviam ser celebradas a portas abertas, tendo por auditório todo o mundo, como se desejava"...
"Há além disso uma voz a reclamar essas definições de princípios e propósitos, que, em minha opinião, é mais comovente e intimativa do que qualquer das muitas vozes tocantes que povoam o ambiente do mundo. É a voz do povo russo... Ele não cede nem nos princípios nem na ação. A sua concepção do que é justo, do que é humano, do que é honroso aceitar, já foi exposta com uma franqueza, uma largueza de vistas, uma generosidade de espírito, uma universal simpatia humana que há de provocar a admiração de todos os amigos da humanidade. Tem ele recusado transigir nos seus ideais, ou abandoná-los para garantir a sua própria segurança"...

Depois disso, não há senão que subscrever e seguir com entusiasmo as recomendações feitas pelo Cosmopolita, ao comentar estes mesmos trechos da mensagem de Wilson:
"Tornando... às imbecilidades estampadas na imprensa carioca, só nos resta recomendar aos nossos amigos e camaradas esses senhores jornalistas dos rotativos: por enquanto o desprezo e o desdém... e mais tarde, na hora solene do grande e próximo ajuste de contas, então, sim, saibamos tirar proveito da rijeza combativa dos nossos músculos!".
O desmembramento do colosso
Uma das conseqüências da Revolução Russa que mais assombro e indignação causam aos nossos jornalistas é a do desmembramento do ex-Império.

Eles põem as mãos na cabeça, desorientados, ao lerem os telegramas que noticiam a independência e autonomia da Finlândia, do Cáucaso, da Sibéria, da Ucrânia... E as suas apóstrofes de maldição desabam sobre os maximalistas, "monstros" satânicos e cruéis, provocadores da derrocada da própria pátria! 

Isto se tem dito e redito em vários tons, graves e agudos, descompassados todos... Ora, são esses mesmissímos jornalistas açambarcadores da opinião, cuja vacuidade mental e cuja barriga não são inferiores nem à barriga, nem à vacuidade mental dos açambarcadores de açúcar ou de charque, são esses mesmissímos plumitivos super-aliadófilos que proclamam, desde há três anos e meio, baterem-se os aliados pelo direito das nacionalidades, pelo princípio das nacionalidades, pela independência das nacionalidades! 

De duas, uma: ou tais pregoeiros são insinceros, quando defendem a causa aliada da independência dos povos, ou então ignoram inteiramente a história, a constituição e a organização do ex-Império de todas as Rússias. Isto é, pode ser por um terceiro motivo: a insinceridade e a ignorância juntas. Eu estou certo de que, mesmo quando se lhes prove, documentos na frente, que a Rússia de ontem era um amontoado heterogêneo de nacionalidades, eles continuarão, cegos e surdos às boas razões (mas de olhos arregalados e ouvidos aguçados no tilintar dos esterlinos...) a apostrofar a "insensatez", a "loucura", a "infâmia", a "traição" e não sei mais que outros tremendos pecados dos maximalistas!
A "traição" dos aliados...
Todos os tratados e convênios, secretos ou não, firmados pela Rússia e pelas nações da Entente, datam do governo autocrático do czar. Mas o governo autocrático do czar caiu, e debaixo de palmas dos aliados, pela vontade revolucionária do povo russo, num soberbo quebrar de cadeias tirânicas. A revolução, como se viu, de começo manietada pelo Lvov, pelos Rodzianko, pelos Miliukov, pelos Kerenski, integrou-se finalmente nas mãos da plebe, tomando uma orientação verdadeiramente popular e libertária, — antiguerrista, antiburguesa, antiautoritária. 

Nada mais lógico, nem mais justo, pois, que se declarem anulados todos os convênios e tratados anteriormente concluídos entre os governantes da Rússia e os governantes de outras nações. 

O governo do czar era um governo de tirania, constituído fora da vontade, contra a vontade da massa da população, e por isso acabou sendo derrubado por essa massa: conseqüentemente, todos os atos, todos os contratos firmados no tempo do czar o foram pela vontade exclusiva da tirania dominante e contra a vontade do povo. 

Desde, pois, que a tirania foi vencida e o povo triunfou, aqueles tais atos e contratos, conluios e entendimentos, por sua própria natureza, por seu próprio mal de origem ficaram desfeitos e anulados. É um ponto, este, deploravelmente olvidado pela imprensa, quando se refere, furiosa, à "traição ignóbil e abominável" feita pelos comissários do povo russo aos aliados... Aos governantes aliados, entenda-se!
As utopias deliciosas e alegres...
"Foi, de fato, a Revolução Russa, com todos os trágicos sucessos, o acontecimento que mudou a face das coisas, começando a tornar possíveis programas, transformações sociais, movimentos de independência política e sistemas de governo que já nos primeiros meses de guerra continuavam a ser considerados como fatos impraticáveis e inconvenientes, como utopias deliciosas e alegres" — "Esqueciam-se os que assim pensavam que, igualmente como utopias consideradas foram, no seu início, todas as grandes conquistas da humanidade e da civilização..."

Estas palavras — mirable dictu! — são rigorosamente transcritas do Paiz, da apreciação com que o famigerado órgão encabeçava as notícias de revolução na Áustria. Apenas, o redator de O Paiz devia ter escrito: "esquecíamos, os que assim pensávamos" ... Menos esta restrição, alias secundária, não há como louvar a agudeza de vistas e a rara franqueza do comentador. Porque tais conceitos destoam completamente dos em geral expendidos pela imprensa, quando nos chegam notícias de realização e concretização das antigas utopias socialistas e anarquistas... 

Antes da guerra, toda a imprensa graúda, e com ela os seus sacerdotes maiores e menores e mais os seus devotos, riam-se (às vezes, choravam também...), com um superior e piedoso desdém, das idéias e dos ideais dos utopistas, dos sonhadores, dos visionários, dos aluarados, dos quimeristas... E quando não era o riso escarninho, sabemo-lo todos, substituía-o a pancadaria grossa das calúnias, das infâmias, dos insultos, dos doestos, das ameaças.

Rebentada a guerra, o riso se estendeu abertamente até à gargalhada estrondosa: foram então dados como falidos de vez, e sem mais remédio, o socialismo, o anarquismo, o internacionalismo, o antimilitarismo...

Debalde os anarquistas e só os anarquistas (porque os próprios socialistas, com pouquíssimas exceções, e até mesmo alguns anarquistas aderiram todos mais ou menos à guerra e ao Estado), gritaram e afirmaram a integridade das suas convicções e das suas esperanças; os apodos recrudesceram, e com os apodos dos sabicholas da letra de forma, a perseguição, a cadeia, a morte... 

A guerra porém, levada a excessos inauditos, acabou por provocar a Revolução Russa, revolução social e não apenas política e antidinástica, que fatalmente se estenderá pelo mundo inteiro, arrasando tudo, transformando tudo, reconstruindo tudo sobre bases novas. Pois bem: neste momento, quando nos chegam da Rússia notícias de caráter libertário, de socialização da propriedade, de entrega das terras aos lavradores e das fábricas aos operários, de administração da produção e do consumo diretamente feita pelo proletariado de blusa e de farda, quando numa palavra, se realizam e se concretizam as "utopias deliciosas e alegres", outrora perigosas ou bonitas, mas sempre absolutamente impraticáveis, saem-se os grandes jornalistas com os olhos a saltarem fora das órbitas, a falarem em "espantosas" transformações, em "loucuras" do populacho, em "bebedeiras" de liberdade!... 

Assim: antes da guerra, as nossas doutrinas eram muito "bonitas", mas irrealizáveis; ao declarar-se a guerra, estavam todas "falidas"; e agora, no começo da revolução social, quando vão tendo aplicação, são "espantosas" e "absurdas"... Não admira, pois, que a burguesia esteja irremediavelmente perdida: essa incapacidade intelectual dos seus mentores e publicistas vale por um sintoma grave e definitivo...
Os escribas de a Razão
De todos os jornais cariocas e, com certeza, de todos os jornais do mundo, aquele que mais danada e azeda bílis tem expectorado contra os maximalistas é, sem dúvida, A Razão. Dirigido por um energúmeno cômico e notório, profeta e papa espírita, semilouco e pouco menos que analfabeto, esse jornal tem, no entanto, apesar disso, uma tal ou qual popularidade, ganha com algumas campanhas simpáticas. 

A sua fobia antimaximalista é duplamente odiosa: em si mesma e pelo fato de se espalhar principalmente na massa proletariada, ludibriando-a e envenenando-a. Eu compreendo e até alegro-me com as injúrias, por exemplo, do Jornal do Comércio: está no seu papel de folha conservadora. A Razão, porém, se apregoa como um órgão criado especialmente para o povo, para as classes operárias: mente e remente dobrado, por dentro e por fora, para a direita e para a esquerda... 

Eu quero reproduzir, para escarmento dos escribas que a redigem, um dos seus muitos tópicos contra o maximalismo:
Porque os tais maximalistas não são apenas uns loucos, incapazes de compreender a profunda inconveniência de, em uma hora como esta, provocar agitações políticas internas. São também uns notáveis canalhas, apontados universalmente como agentes alemães e que, além disso, querem suprimir o direito de propriedade na Rússia, entregando todas as terras à plebe inconsciente que, levada por essa miragem de ficar rica em poucas horas, esquece os altos deveres de defender a Pátria, já invadida e em parte dominada pelo estrangeiro. Esses infelizes são dirigidos e guiados por um monstro da ordem de Lenin que se prestou ao papel ignóbil de ir abrir as portas da Rússia ao mais perigoso de todos os imperialismos o que tem por centro motor a casta dominante na Rússia militar. Alimentados pelo dinheiro alemão, conduzidos pelos espiões e pangernistas de Berlim, os maximalistas, conseguindo, por um golpe feliz da fortuna, apoderar-se da Rússia, não trepidaram ante o crime, ante à infâmia descomunal de propor imediatamente a paz em separado à Alemanha, traindo de modo revoltante os aliados, aos quais jurara o colosso moscovita só agir de concerto com as nações da Entente.

Este chorrilho ignomioso de mentiras, de intrigas, de calúnias, foi estampado na seção editorial Fatos e Informações do dia 16 de novembro de 1917. Nove dias após a caída de Kerenski. É um documento que merece registro e de que nos devemos recordar para as necessárias satisfações, no dia em que a revolução, atravessando o oceano, irrompa justiceira por estas riquíssimas terras brasílicas de miseráveis e famintos...

Assessoria de Comunicação do CEDEM, da Unesp e Fundo Astrojildo Pereira

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