Seis passos básicos contra o bullying: veja do que alunos, pais e escolas precisam para combater a prática

Seis passos básicos contra o bullying: veja do que alunos, pais e escolas precisam para combater a prática
Por Ana Carolina Moreno e Juliana Cardilli, G1

Fachada do Colégio Goyases, em Goiânia, onde um estudante de 14 anos usou a arma dos pais para abrir fogo contra colegas na sala de aula (Foto: Sílvio Túlio/ G1)
Fachada do Colégio Goyases, em Goiânia, onde um estudante de 14 anos usou a arma dos pais para abrir fogo contra colegas na sala de aula (Foto: Sílvio Túlio/ G1)

Veja as principais estratégias para lidar com a intimidação entre estudantes. Nesta sexta-feira, um aluno de uma escola particular em Goiânia abriu fogo na sala de aula após sofrer provocações.

Combater o bullying é obrigação prevista em lei, mas a prática persiste em todo o país e é apontada como motivação para um ataque dentro de uma escola em Goiás. Especialistas ouvidos pelo G1 apontam em seis passos como as escolas e as famílias podem agir com eficácia para lidar com esse problema:

Reconhecer a existência do bullying
Conhecer e cumprir a lei de combate ao bullying
Transformar os valores dos alunos
Engajar os professores
Envolver os pais na vida escolar
Não subestimar o cyberbullying


Os pontos acima foram apontados pelos especialistas abaixo, e o G1detalha na sequência cada um dos passos:

Luciene Regina Paulino Tognetta, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), que reúne pesquisadores da Unesp e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Vanessa Bencz, jornalista e escritora
Maria Cláudia Minozzo Poletto, vice-diretora do Colégio Rainha da Paz
Andrea Ramal, especialista em educação e colunista do G1


Veja abaixo as principais estratégias indicadas pelas especialistas:

Reconhecer a existência do bullying

Apesar de já existirem pesquisas e campanhas de conscientização sobre bullying no Brasil há 15 anos, a professora Luciene Tognetta, da Unesp, afirma que muito pouco se avançou na questão e, mesmo entre os especialistas, as "características psicológicas" envolvidas no problema ainda são desconhecidas.

"Veja como estamos atrasados, ainda se faz campanhas para conscientizar que bullying existe. Isso significa dizer que nós não saímos no lugar. Saímos no sentido da normalização, da lei, mas as escolas ainda desconhecem o fenômeno", explicou ela.

Luciene afirma que o bullying precisa ser entendido como "um grande e cruel problema de convivência".

"A atuação tem que se dar dentro de um grande programa de convivência, porque o bullying nada mais é do que um grande e cruel problema de convivência." - Luciene Tognetta (Unesp)

Muitos colégios ainda evitam reconhecer a dimensão do problema. No colégio Rainha da Paz, a vice-diretora, Maria Cláudia Minozzo Poletto, afirmou que a abordagem escolhida foi "tratar disso com tranquilidade", e focar principalmente na prevenção. Segundo ela, hoje em dia as escolas são, para muitas crianças, o único espaço público de convivência, que tem regras diferentes da casa deles, onde o espaço é privado.


Por isso, assim como os alunos precisam de ajuda se estão com dificuldade com matemática, o mesmo acontece com a convivência. "Que alunos precisam de ajuda para aprender a conviver. Cada vez menos as crianças frequentam outros espaços públicos, cada vez mais as escolas são o grande espaço público de convivência. É inevitável que chegue na convivência escolar."

Conhecer e cumprir a lei de combate ao bullying

Desde fevereiro de 2016, uma lei federal determina que todas as escolas públicas e privadas do Brasil precisam "assegurar medidas de conscientização, prevenção, diagnose e combate à violência e à intimidação sistemática (bullying)". Luciene Tognetta diz que, caso fique claro que a escola não possui um sistema organizado de ações para prevenir o problema, ela corre o risco de ser processada.


A lei deixa claro que bullying não se trata apenas de violência física, mas também pode ser verbal, moral, sexual, social, psicológico, físico, material e, inclusive, virtual. Isso inclui "comentários sistemáticos e apelidos pejorativos", por exemplo, além de "grafites depreciativos", "expressões preconceituosas" e "isolamento social consciente e premeditado", entre outros.


"Na maioria do que a gente observa é que não tem violência física", diz Maria Cláudia. "Os alunos tendem a se sentir muito intimidados, então poucos conseguem realmente reagir."


Desde 2015, o Gepem auxilia colégios privados e públicos brasileiros a implantar um "conjunto de estratégias" elaborados em parceria com pesquisadores de outros países onde já existiam políticas públicas para combater o problema, como Reino Unido, Espanha e Finlândia. Atualmente, 11 escolas no Estado de São Paulo – seis públicas e cinco particulares – já trabalham com o programa, que envolve o desenvolvimento do protagonismo infanto-juvenil pelo sistema de "equipes de ajuda" ("peer support", em inglês, ou "equipos de ayuda", em espanhol), e a capacitação dos professores.

Transformar os valores dos alunos
Focar no protagonismo infanto-juvenil para solucionar esse problema de convivência, segundo Luciene, passa pela transformação dos valores dos alunos. Tanto Vanessa quanto Luciene afirma que as pessoas mais indicadas para identificar o bullying são os próprios colegas da escola.

"As pesquisas mostram que o que a gente chama de indiferença é na verdade uma falta de sentido. O sentido daquele grupo é ser forte, poderoso, cheiroso. Então, os que não são são tidos como inferiores", explica a professora da Unesp. "Se você trabalha o sentido do grupo, o que é valor para o grupo, e começa a trabalhar com a não-violência, você institui outros valores para que esses meninos consigam atuar. E quando eles atuam, muda o clima da escola, e mudando esse clima, os meninos vão mudando."

O Rainha da Paz é um dos 11 colégios que implantou o projeto em parceria com o Gepem, há dois anos. Desde o começo de 2017, todas as turmas do ensino fundamental ganharam uma "equipe de ajuda". Segundo Maria Cláudia, de dois a três alunos por turma foram indicados pelos próprios colegas como pessoas confiáveis. Eles estão passaram por uma capacitação específica para dar apoio aos colegas que precisam de ajuda na convivência.

"A equipe de ajuda é um trabalho que depende muito da cultura do colégio. Para mudar a cultura é uma coisa que demora, não muda de um dia para o outro", explicou ela. Porém, alguns resultados já foram apontados, como o fato de as crianças tomarem a iniciativa de acionar a equipe de ajuda de sua turma para buscar apoio, ou os próprios integrantes da equipe de ajuda atuarem proativamente na detecção de problemas de convivência.

Vanessa defende a prevenção – com exemplos práticos nas escolas, e não apenas dizer que não se pode fazer bullying. E a prevenção pode ser feita valorizando e exemplificando sentimentos positivos, como altruísmo, empatia, coragem, auto estima, incentivo. “Nas minhas palestras, quando pergunto o que é empatia, ninguém sabe explicar o que é empatia, uma pessoa levanta a mão. Quando falo de violência, todos levantam a mão. A gente está focando no lado errado”, afirma.

Segundo Andrea Ramal, especialista em educação e colunista do G1, o bullying só existe porque há uma plateia e, por isso, é preciso que os estudantes que testemunhem a intimidação de um colega não se calem. "Quando houver alguém sofrendo atos de crueldade, cabe a denúncia. Isso vale para toda a vida, e começa no ambiente escolar, onde as crianças esperam aprender, fazer amigos e se divertir."



Aplausos para os agressores, pais omissos e professores desligados contribuem com bullying

Engajar os professores

Apesar de os alunos serem mais aptos que os professores na hora de identificar o bullying, cabe um papel fundamental aos docentes: o de se engajar moralmente no problema. Luciene afirma que este é um dos grandes desafios do combate ao bullying, já que muitas vezes as escolas sequer reconhecem o problema. Além disso, a capacitação dos docentes neste quesito ainda é pequena.

"A gente não tem ainda programas de convivências instalados nas escolas, muito menos de formação docente para este trabalho", diz ela.

Nos projetos implantados em parceria com o Gepem em São Paulo, a coordenadora do grupo de estudo diz que já foi registrada a mudança de comportamento dos professores ao se depararem com situações de bullying entre os alunos. "Os professores que passam por essa reflexão do projeto são muito mais engajados moralmente", explica.

Luciene deu como exemplo um professor que testemunha um caso de intimidação entre um grupo de alunos. Entre suas alternativas está concluir automaticamente que se trata de uma "brincadeira", por não haver violência física, ou passar reto sem abordar os estudantes. Um docente engajado moralmente, segundo a especialista, vai intervir na situação. "Ele vai intervir porque ele vai saber que isso é um problema. E vai sempre resgatar o conteúdo moral que está perdido nessa ação."

Envolver os pais na vida escolar
"Nem sempre é fácil descobrir se a criança sofre ou pratica bullying", afirma Andrea Ramal. "Mas tudo é mais simples quando os pais constroem uma relação de confiança e diálogo aberto, com sensibilidade para acolher o filho, sem minimizar a importância de seus problemas, atentos a suas aflições."


Vítima de bullying na infância, Vanessa defende que os pais ouçam mais os seus filhos – não apenas de maneira responsiva, mas fazendo perguntas. Ela defende que a conversa seja acolhedora, olho no olho, na mesma altura. "Se colocando para ajudar, perguntando como pode ajudar, como podem lidar juntos."

"Os pais não legitimam o sentimento dos filhos. Pergunte, ouça, acolha. A gente não está fazendo isso. É muito fácil criticar, julgar, dizer no meu tempo não era assim. Mas somos diferentes." - Vanessa Bencz


Não subestimar o cyberbullying

De acordo com a experiência do Rainha da Paz, a faceta principal do bullying nas escolas não é física, e muito menos visível nas salas de aula e corredores. "O que a gente vê é um aumento grande na quantidade de cyberbullying. Ele potencializa imensamente o bullying. Na minha época, quando você era adolescente e tinha problema na escola, você ia para casa, chorava, tomava um banho, comia um brigadeiro e no dia seguinte a gente vai para a escola", explicou ela. "Com as redes sociais, o bullying não fica só na escola. E com a proteção da tela, os alunos sentem coragem de falar outras coisas que não falariam pessoalmente."

Maria Cláudia explicou que a falta de maneiras conscientes de lidar com a privacidade e o anonimato na internet é problemático porque afeta inclusivo muitos adultos e, por isso, os adolescentes e até as crianças ficam ainda mais vulneráveis. "Não conheço nenhuma escola que não tenha casos [de cyberbullying]", disse ela.


No Rainha da Paz, os trabalhos de incentivo à convivência tentam desfazer uma impressão equivocada que, segundo Maria Cláudia, acaba incentivando o cyberbullying.

"Os alunos dizem: 'Quando eu xingo alguém no grupo de WhatsApp, ele não sente tanta vergonha quanto sentiria na vida real'. Isso não é verdade, porque a pessoa se sente humilhada da mesma maneira, é a mesma humilhação. Mas o aluno tem essa falsa ideia de que machuca menos." - Maria Cláudia Minozzo Poletto, vice-diretora do Colégio Rainha da Paz

Outro desafio que as redes sociais apresentam é a relutância dos alunos em preservar a própria privacidade. No Rainha da Paz, essa questão é trabalhada com alunos e pais desde o quinto ano do ensino fundamental, com crianças a partir de 11 anos. "Falamos sobre não deixar redes sociais abertas, sobre o que pode acontecer com uma foto sua quando é colocada na internet. Eles falam que sabem o risco que correm, porque quando deixam as redes fechadas vão ter menos curtidas. Tem aluno do quinto ano que sabe disso."

Do G1

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