IDEOLOGIA DE GÊNERO: Um conceito, dois significados opostos


IDEOLOGIA DE GÊNERO: Um conceito, dois significados opostos

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Atualmente há um debate intenso na opinião pública brasileira sobre o conceito “ideologia de gênero”. É importante atentar para o fato que há dois significados sobre este conceito. Opostos e conflitantes, se originam em dois campos de construção de conhecimento e práticas igualmente opostas: o pensamento religioso conservador de um lado e a pesquisa e científica, acadêmica e também proveniente de movimentos sociais, de outro.

    Ideologia de gênero, a partir da interpretação teórica feminista, e logo, de esquerda, emancipadora e/ou libertária, diz respeito à ideologia patriarcal expressa na exploração e violência que homens cometem contra mulheres de forma contínua no regime social, político e econômico atual que é o patriarcado. Os pensamentos feministas e outros, vem enfatizando a relação de hierarquia onde homens se sobrepõe às mulheres nas sociedades. Socialmente se justifica essa relação de dominação através da naturalização nos homens, de comportamentos expansivos, agressivos e de controle e tomada de decisão, ou seja, o gênero masculino. Ao passo que às mulheres se associa a passividade, a delicadeza, o cuidado e a fragilidade, ou seja, o gênero feminino. Tal relação resulta em uma realidade atual onde mulheres são assassinadas e estupradas por homens, pelo fato de serem mulheres, diariamente em todos os países do mundo em razão inversamente proporcional à homens assassinados ou estuprados por mulheres. Este contexto é socialmente construído e embasa relações, legitimando as violências praticadas contra as mulheres.

    Ideologia de gênero, a partir da interpretação da direita conservadora atual brasileira, é um termo que começou a circular recentemente no debate público de forma mais intensa e apresenta grande incoerência conceitual. Esses mesmos grupos, muitos de origem religiosa, apresentam definições distintas sobre o termo e de forma confusa, misturam autores e teoria, se colocando resistentes ao debate sobre a violência envolvida nos papéis de gênero socialmente construídos e atribuindo um caráter de natureza ao desempenho de funções exercidas por homens e mulheres na sociedade, através de argumentos de base religiosa, ou seja, provenientes de um conjunto de crenças a nível da espiritualidade.

    A espiritualidade é elemento do terreno do subjetivo, apesar de gerar contextos objetivos de organização coletiva e de lida individual com o próprio corpo. São diversas as religiões existentes por todo o mundo, sendo o Brasil inclusive um país multi-religioso a nível social e laico a nível da política representativa. Nesse sentido, é inadmissível que as crenças de alguns grupos religiosos se sobreponham ao caráter laico do Estado, aprovando leis cujo conteúdo altera o cotidiano de todos, sendo porém, expressão de apenas uma parcela, sobrepondo fés específicas às análises políticas. Atualmente existem tentativas político representativas de proibição de debates, reflexões, aulas e estudos nas escolas, acerca das relações sociais entre homens e mulheres, das construções sociais da subjetividade e do desenvolvimento histórico de papéis sociais atribuídos à homens e mulheres. Proibir o debate sobre gênero é proibir o debate sobre a violência contra a mulher, pois, as construções de gênero estão calcadas na violência que homens cometem contra mulheres. Nesse sentido, o pensamento conservador é pró-gênero, pois, defende a continuidade e manutenção dos papéis de gênero sem questionamento. Como dito acima, um dos principais argumentos para impedir o debate é a atribuição dos  papéis de gênero à uma origem espiritual, que os naturaliza e essencializa, tornando-os inquestionáveis.

    Este contexto dificulta o debate sério, se baseia em informação imprecisa - como demonstra as definições inconsistentes e equivocadas sobre o termo “ideologia de gênero” -, difunde desinformação e confunde as pessoas. Logo, constata-se  irresponsabilidade na forma como o debate está sendo conduzido. Contrasta inclusive, com o acúmulo teórico atual, fruto de décadas de debate sobre o termo. Nesse sentido, há grande necessidade de debates públicos e estudos sobre sociedade, patriarcado, violência e gênero, não apenas nas escolas, mas, em todos os lugares. Concluo reafirmando: ideologia de gênero é a ideologia que reforça a violência dos homens contra as mulheres. Sociedades que buscam a paz devem ter como meta o fim de toda e qualquer violência. E para isso, debates tem que ser realizados, em busca da formação de seres pensantes, críticos, autônomos e conscientes da realidade que os cerca e quem sabe em algum momento ocorra o fim do gênero, ou seja, o fim da violência dos homens contra as mulheres.

Consultar:
“Violência de Gênero no Brasil Atual”. Heleieth Safioti. Revista Estudos Feministas, 1994.
“O que é Teologia Feminista”. Ivone Gerbara, 2007.
“Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da saúde”. Cerqueira.; Coelho. 2014.

Daniela Alvares Beskow. Escritora e bailarina. Mestre em Artes Cênicas (UNESP-SP), Bacharel em Ciêcias Políticas (Unicamp), licenciada em Ciências Sociais (Unicamp) e bacharel em Comunicação das Artes do Corpo (PUC-SP).

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