Caso de romena encontrada com filha após 10 anos presa em porão choca Itália

Caso de romena encontrada com filha após 10 anos presa em porão choca Itália
Por BBC
Romena de 29 anos foi encontrada pela polícia italiana trancada a chave em um porão sem água, luz elétrica ou sistema de esgoto (Foto: BBC/Polícia italiana)
Romena de 29 anos foi encontrada pela polícia italiana trancada a chave em um porão sem água, luz elétrica ou sistema de esgoto (Foto: BBC/Polícia italiana)

Mulher de 29 anos foi encontrada pela polícia italiana com a filha de 3 anos, trancada a chave em um porão sem água, luz elétrica ou sistema de esgoto. Ela sofreu abusos sexuais e agressões por uma década.


Um sequestro que durou dez anos, com centenas de episódios de violência e dois filhos frutos de estupros por parte do sequestrador chocou a Itália.

Uma romena de 29 anos foi encontrada pela polícia trancada a chave em um porão, sem água, luz elétrica ou sistema de esgoto, em Gizzeria, na Calábria. Ela estava com a filha de três anos.

O caso é semelhante a outros dois episódios que horrorizaram o mundo - o sequestro de Natascha Kampusch, que passou dez anos em um porão no subúrbio de Viena, e os 24 anos de cativeiro vividos por Elisabeth Fritzl, sequestrada e estuprada repetidas vezes pelo pai, Josef Fritzl.

Assim como as duas, a romena encontrada pela polícia italiana vivia trancafiada e em situação precária.

"Quando os agentes entraram, a jovem estava sentada no chão, com uma criança no colo, completamente no escuro, em meio a excrementos, insetos e ratos. Uma situação macabra, difícil de descrever", disse à BBC Brasil o capitão Pietro Tribuzio, comandante da Polícia Militar da cidade de Lamezia Terme, no sul do país.

A descoberta do cativeiro

A situação deplorável em que a mulher, que não teve a identidade revelada, era mantida foi descoberta quase por acaso.

Durante uma blitz de rotina, realizada no dia 9 de novembro, os policias de Gizzeria, município calabrês com menos de 5 mil habitantes, pararam Aloisio Francesco Rosario Giordano, de 52 anos, por dirigir em alta velocidade.

"Além das péssimas condições do automóvel, os policiais notaram uma criança dormindo no banco traseiro. A grande diferença de idade entre o homem e o menino de nove anos, que ele disse ser seu filho, o comportamento reticente e as respostas evasivas que fornecia suscitaram a suspeita dos agentes", contou Tribuzio.



Cativeiro Image caption Cativeiro tinha dezenas de objetos acumulados, restos de comida, latas com excrementos e um colchão no chão, onde a jovem dormia com os filhos (Foto: BBC/Polícia italiana)

"Ao levantarem sua ficha criminal, os policiais constataram que Giordano já havia sido condenado por sequestro e violência sexual, e decidiram segui-lo até a sua residência."

De acordo com o comandante, quando os policiais chegaram ao terreno, em uma localidade isolada e de difícil acesso de Gizzeria, o homem teria dito que a mulher e a filha deles de três anos não estavam em casa naquele momento.

Ainda segundo Tribuzio, os policiais então notaram a porta de um galpão trancada com corrente e cadeado, e ordenaram ao homem que a abrisse.

Segundo a imprensa local, Giordano escondia a chave dentro de seu carro. Ao abrirem a porta, os agentes encontraram um porão, descrito por eles como um local lúgubre: havia dezenas de objetos acumulados, restos de comida, latas com excrementos e um colchão no chão, onde a jovem dormia com os filhos.

Inicialmente a mulher teria afirmado viver naquelas condições de comum acordo com Giordano - e acabou transferida, com as duas crianças, para um hotel da cidade. Mas dias depois, após receber assistência psicológica, a vítima começou a relatar a violência a que teria sido submetida por dez anos.

Uma década de tortura


Os detalhes do período de cativeiro, revelados pela imprensa local, surpreendem pela crueldade do sequestrador.

Entre outras agressões físicas, a jovem contou ter recebido vários golpes na cabeça e cortes no órgão genital, e que os ferimentos eram costurados pelo homem com linhas de náilon, utilizadas para pesca.

A mulher teria dito ainda que os filhos também eram vítimas de agressões físicas, e que Giordano obrigava as crianças a insultar e a cuspir na própria mãe.


O 'banheiro' era um balde colocado em baixo de uma cadeira (Foto: BBC/Polícia italiana)

"As duas crianças nasceram no hospital de Catanzaro", disse o comandante da polícia à BBC Brasil. Depois do parto, a mulher teria sido impedida pelo sequestrador de voltar ao médico, e os pontos teriam sido retirados por ele mesmo, com uma pinça.

"O terreno onde o sequestrador mantinha a vítima e os filhos, herdado da mãe, era isolado e de difícil acesso, e isso o ajudou a mantê-la escondida por tanto tempo."

"Para não levantar suspeitas, quando os professores começavam a perguntar pela mãe do aluno, Giordano transferia o filho de nove anos de escola", contou Tribuzio.

Após o relato da vítima, o italiano foi preso no dia 21 de novembro. Em sua ordem de prisão, o juiz definiu as declarações do acusado como "não críveis, porque intrinsicamente inverossímeis, confusas e em parte contraditórias".

Esta é a segunda vez que Giordano é acusado formalmente de violência contra mulheres. Em 1995, ele foi condenado a cinco anos de prisão por sequestro, violência sexual e lesões corporais contra uma jovem de 23 anos.

Durante o processo, essa jovem contou ter sofrido dois abortos provocados pelo agressor e que era submetida a violência física, inclusive na presença da mulher de Giordano, uma cidadã marroquina com a qual o homem tem dois filhos.

Porta do galpão estava trancada com cadeado (Foto: BBC/Polícia italiana)

Como a vítima conheceu Giordano


A romena recém-libertada do cativeiro chegou à Itália em maio de 2007, quando tinha 19 anos, em busca de trabalho e de uma vida melhor.

Meses depois teria sido contratada por Giordano para cuidar de sua mãe doente - mas a mulher era, na verdade, sua esposa.

Aos policiais, a jovem contou que o percurso entre as cidades de Lamezia Terme, onde vivia, e Falerna (onde Giordano morava com a mulher) foi a última viagem serena da sua vida.

"Sem saber, eu estava indo de encontro com aquilo que se revelou um inferno", disse ela aos agentes.

Em sua defesa, o italiano afirmou que a jovem era livre para ir onde quisesse. Ele disse ainda que os dois se amam, mas que o relacionamento estava em crise.

"Ainda temos que aguardar o processo, mas os antecedentes criminais do homem, assim como as imagens da casa em total abandono, o extremo degrado em que a vítima e as crianças se encontravam, vivendo em meio a restos de comida e excrementos, e aquela porta fechada por fora dizem muito sobre o que ocorria lá dentro."

Do G1

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