BRASIL As consequências da greve

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As consequências da greve
Por Helio Gurovitz

À medida que o combustível volta às bombas, o cenário eleitoral sofrerá os efeitos do comportamento dos pré-candidatos durante a paralisação (Foto: Ascom / MPPA)

À medida que o combustível volta às bombas, o cenário eleitoral sofrerá os efeitos do comportamento dos pré-candidatos durante a paralisação (Foto: Ascom / MPPA)

Na economia, o prejuízo é evidente; na política, o quadro ficou mais nebuloso – e mais sério

As consequências econômicas da greve dos caminhoneiros são as mais óbvias. Prejuízos estimados em pelo menos R$ 75 bilhões em vários setores, revisão do crescimento do PIB para menos de 2% neste ano, subsídios gerando alta de impostos ou da dívida pública, que bateu ontem em 76% do PIB.


As consequências políticas são menos evidentes. Nem tanto para o governo atual, em seus estertores, moribundo diante das denúncias de corrupção que tornaram inviável qualquer tentativa de levar adiante o programa de reformas. Mas para o próximo, que está por vir.


O presidente Michel Temer acaba de colher nas estradas apenas o resultado de suas escolhas: a crença vã em que o impeachment de Dilma Rousseff protegeria seu grupo político da ação da Justiça e a decisão desastrada de receber o empresário Joesley Batista no Palácio do Jaburu naquela noite fatídica há pouco mais de um ano.


Prova de que Temer é um cadáver político é a pesquisa em que o Datafolha afirma ter constatado que 87% da população apoiam a greve dos caminhoneiros. A pesquisa deve ser lida não como apoio universal à paralisação (42% queriam o fim da greve), mas sim como rejeição quase unânime ao governo Temer.


Ela também revelou uma contradição aparente, ao apontar que 87% discordam do uso do Orçamento federal para atender às reivindicações daqueles que dizem apoiar. O brasileiro quer, ao mesmo tempo, menos impostos e mais direitos, menos gastos públicos e mais Estado.


Só fica espantado com o paradoxo quem não conhece a própria mente, nunca teve filhos ou nunca conversou com uma criança. Todos queremos tudo. A vida adulta consiste justamente em fazer escolhas diante de possibilidades restritas. Numa massa difusa, os desejos sempre aparecem de forma bruta, sem limite nem mediação racional.


A política consiste na arte de conciliar, de convencer a população de que a satisfação dos desejos exige sacrifícios, ainda que temporários. Não é tarefa que derive automática nem necessariamente da racionalidade econômica. Ao contrário, racionalidade demais pode atrapalhar o convencimento.


Não adianta explicar que a flutuação diária dos preços da Petrobras é melhor para a empresa e para a economia. O motorista ou caminhoneiro que abastece na bomba, acostumado a décadas de manipulação política, congelamento e controle de preços, jamais será convencido a mudar de hábito se os benefícios não forem claros e tangíveis.


Insistir no discurso racional para convencê-lo é um erro cometido não apenas pelo governo Temer ou pelo presidente da Petrobras, Pedro Parente, mas por todos aqueles que põem a razão econômica acima do debate político. Seres humanos são guiados por paixões e emoções. A razão é uma conquista essencial, mas tardia para a espécie.


Quem, em vez da análise econômica, tiver lido corretamente as emoções populares sairá beneficiado nas eleições. Não há, à primeira vista, um nome favorecido de modo óbvio por um movimento que manifesta a repulsa da população pelo governo, por todos os políticos e pela incapacidade do establishment em atender as demandas da sociedade.


Parece evidente, contudo, quem saiu perdendo. Obviamente, Temer e Henrique Meirelles, associados indelevelmente à inépcia diante do movimento. Mas também o deputado Jair Bolsonaro, cujo apoio de primeira hora aos grevistas e cujas declarações em prol do controle de preços destruíram o verniz liberal de racionalidade econômica que se tentava aplicar sobre sua candidatura.


Ele não perderá o eleitor fiel, nem os fanáticos das redes sociais, mas reduziu muito suas chances de convencer agentes econômicos e a classe média mais moderada que poderia vê-lo, numa versão repaginada, com mais simpatia num hipotético confronto no segundo turno.


O campo associado à esquerda sofreu menos. Primeiro, porque greves bem-sucedidas – não há dúvida de que, para a categoria, esta foi uma delas – estimulam outras (como a dos petroleiros). E greves são, por natureza, movimentos de esquerda, mesmo quando os grevistas se dizem “de direita” ou favoráveis a um golpe militar.


Segundo, porque o naufrágio do PT começa a ser absorvido, abrindo espaço para o crescimento da candidatura Ciro Gomes. Em suas declarações, Ciro ecoou o sentimento de insatisfação da população sem cair em armadilhas como Bolsonaro. Quando fala em controle de preços, ninguém tem dúvida de que nunca foi liberal.


Seu assessor econômico, Mauro Benevides, expôs pela primeira vez detalhes de seu programa em entrevista ao jornal Valor Econômico. Surpreendeu pelo grau de transparência. Enquanto Ciro joga para a massa, Benevides chama a atenção até de críticos contumazes no mercado pela seriedade como encara a pauta econômica.


Os demais candidatos parecem ter conseguido preservar a mesma situação. Quem enfrentava dificuldades – como Geraldo Alckmin ou Marina Silva – continuará a enfrentá-las. Os inexpressivos continuam sem expressão. Para Bolsonaro e Ciro, o jogo mudou. Ficou mais sério.

G1

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