Planalto tomava 'decisões sobre vida e morte', diz pesquisador que revelou documento da CIA: 'É perturbador'



Planalto tomava 'decisões sobre vida e morte', diz pesquisador que revelou documento da CIA: 'É perturbador'

Por Matheus Leitão

O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Matias Spektor afirmou ao blog que se emocionou ao descobrir o documento produzido nos EUA que revela autorização do ex-presidente Ernesto Geisel para execuções de opositores ao regime militar no Brasil.


"Eu me emocionei, sabe? É muito triste, é perturbador porque, veja, a gente esta vendo que as decisões sobre a vida e a morte das pessoas eram tomadas no Palácio do Planalto", afirmou.


O memorando encontrado sobre Geisel, de 11 de abril de 1974, foi elaborado pelo então diretor da CIA, William Egan Colby, e endereçado ao secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger.


Na avaliação de Spektor, esse é um dos muitos documentos que surgirão nos próximos anos porque o Departamento de Estado e a CIA têm uma política de abertura sistemática.


"Uma das coisas que eu acho que o documento mostra é que teremos uma história melhor nos próximos anos para contar do que a que a gente conta hoje", declarou.


"Isso independentemente do que acontecer com a documentação brasileira, que continua travada porque a corporação militar encontrou a fórmula de negar a existência de documentos e de não se surpreender com nenhuma alegação, para o caso de aparecer evidências ao longo do tempo", completou.


Leia abaixo os principais trechos da entrevista do professor ao blog:


Blog: O senhor usou a palavra 'perturbador' ao citar o documento do departamento do estado americano que encontrou. Por que?


Spektor: É perturbador porque, veja, a gente está vendo que as decisões sobre a vida e a morte das pessoas eram tomadas no Palácio do Planalto. A gente sabia que a cúpula do regime não só era consciente, como dava ordens, mas a visualização gráfica da coisa é impactante, como aparece no documento. A citação às 104 execuções do governo [Emílio] Médici e porque tem essa decisão de manter a política, com a única excessão de que agora ainda mais centralizada. Eu me emocionei, sabe? É muito triste.



Blog: Qual a importância de um memorando como esse?


Spektor: Esse documento está disponível na internet desde 2015. Ele está junto com uma série grande de documentos liberados pelo departamento de Estado que cobrem esse período não só no Brasil, mas também na América Latina. Acho importante ressaltar que ele é um de muitos que virão. Nos próximos anos virão novas aberturas porque o Departamento de Estado e a CIA têm uma política de abertura sistemática. Uma das coisas que eu acho que o documento mostra é que teremos uma história melhor nos próximos anos para contar do que a que a gente conta hoje, independentemente do que acontecer com a documentação brasileira, que continua travada porque a corporação militar encontrou a fórmula de negar a existência de documentos e de não se surpreender com nenhuma alegação, caso apareçam evidências ao longo do tempo. Foi o formato que eles acharam e não tende a mudar ao longo do tempo.


Blog: O Brasil escolheu não revisitar o seu passado mesmo após a chegada dos governos civis. Faltou acertar as contas para podermos virar a página?


Spektor: Mas você sabe porque os civis não acertaram essa questão. O motivo é porque a transição foi pactuada, não foi uma quebra, como aconteceu em outros países. Foi pactuado, no qual os militares ao sairem do poder criaram a Lei de Anistia. Uma das coisas que eu achei interessante do documento é que fica claro que, com a Lei de Anistia, o [João Batista] Figueiredo estava se auto-anistiando. Coisa que a gente tinha uma noção, mas não havia uma evidencia desse calibre a esse respeito. A auto anistia fica mais evidente.


Blog: O que o senhor achou da reação dos militares em resposta a revelação do documento? Não parece correto afirmar que o país não processou como deveria a importância daquele período da ditadura, de 1964 a 1985?



Spektor: Eu vi a reação do clube militar, mas eu também sei, como historiador que sou, que o que o clube militar diz não necessariamente representa o que a maior parte da corporação pensa. O clube militar não é o melhor proxy de como a corporação pensa. Tem muitos militares que absolutamente condenam o que foi aquele passado e que ficam tão estarrecidos com esse documento quanto você e eu. Essa é a primeira coisa que eu acho importante frisar. A segunda coisa é que o motivo pelo qual o documento gera essa dimensão é porque a gente está em meio a um processo eleitoral, no qual essa questão da ditadura está na pauta do dia. Mas isso não é de agora, é de 2010. Se você se lembra, quando a Dilma se candidatou a primeira vez, foi a primeira vez que essa questão voltava à tona.


Em meio a um processo eleitoral porque ela era a primeira candidata à Presidência que havia efetivamente vivido na clandestinidade nesses termos. Essa não havia sido a situação do Lula, embora o Fernando Henrique tivesse ido pro exílio, assim como o José Serra, a Dilma estava na luta armada. E essa questão se colocou e, desde então, ela se colocou em todos os pleitos eleitorais. Ou seja, 2010, 2014 e agora em 2018, por outro motivo, porque agora tem o [Jair] Bolsonaro [lider das pesquisas presidenciais].


Então, isso é que eu acho muito curioso. Não é só, como você aponta corretamente, que o passado está mal processado, mas que ainda não teve encerramento. Os termos do debate no Brasil são muito diferentes do que são em outros lugares da América do Sul. Não é possível pensar na Argentina um candidato que defenda a ditadura. E eu acredito que a mesma coisa acontece no Chile. Ou no Uruguai. No Brasil, a quantidade de informação enviesada, informação truncada, isso vai ser a tônica dessa campanha. E é nossa responsabilidade coletiva dar batalha à ignorância.


G1

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