Com greve dos caminhoneiros, conspirações sinistras tomam Brasília



Com greve dos caminhoneiros, conspirações sinistras tomam Brasília

por André Barrocal
CARTA CAPITAL

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Atos pela intervenção militar ganham as ruas enquanto parlamentares já discutem suas consequências
Para contornar ‘pepino’ Temer, establishment discute intervenção militar e parlamentarismo. Alto oficialato militar resiste a entrar em cena
Michel Temer está por um fio. A greve dos caminhoneiros deixou claro que o presidente que já não tinha popularidade perdeu também a autoridade. Em Brasília, establishment (A Organização) discute o que fazer com o “pepino” e com o País. As cartas na mesa são sinistras: militares no poder e parlamentarismo.
A hipótese de Temer ser substituído por militares é discutida abertamente no Congresso, como a reportagem testemunhou na segunda-feira 28. Numa rodinha, alguns obscuros deputados diziam que uma intervenção contra o presidente talvez fosse a solução e tentavam se lembrar de como havia sido no golpe de 1964. O Congresso foi fechado?
O carioca Miro Teixeira, do partido Rede, passava por perto neste momento e rememorou que o golpe cassou parlamentares. Podia ter dito também que o fechamento do Legislativo aconteceu de vez em 1968, por quase um ano, no embalo do AI-5.
O medo de o Congresso ser sacrificado juntamente com Temer, na hipótese de intervenção militar, era a preocupação do paulista Celso Russomano, do PRB, como disse numa conversa, vista por CartaCapital, com o conterrâneo Ivan Valente, do PSOL.
Para Russomano, o Congresso deveria assumir as rédeas do País (?), esquecer o governo e dar uma resposta política à greve caminhoneira votando, por exemplo, a redução de impostos.
Russomano contou que no fim de semana havia falado com o comandante militar do Sudeste, general Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira, sobre os desdobramentos da greve. Pelo relato do deputado, o general teria dito, de forma preocupada, que Brasília precisava dar um jeito de resolver a crise, do contrário, havia risco de rebelião da tropa, o pessoal de baixa patente.
Segundo alguns relatos em Brasília, a alta oficialidade das Forças Armadas não quer ter de descascar o abacaxi político criado pelos civis. Um general de pijama afirmou algo parecido em entrevista à Folha do domingo 27.
“Tem gente que quer as Forças Armadas incendiando tudo. E a coisa não pode ser assim, não pode ser desse jeito”, comentou Antônio Mourão. “Se o governo não tem condições de governar, vai embora, renuncia. Antecipa as eleições, faz qualquer coisa, mas sai do imobilismo dele.”
O que não significa que nas Forças Armadas não haja saudosos da ditadura de 1964, para os quais é dever deles comandar o País. Quando comandaram, mataram brasileiros com autorização pessoal dos ditadores-presidentes, como mostra um documento da CIA descoberto recentemente.
O documento foi citado pelo procurador de Justiça Andrey Borges de Mendonça em uma denúncia apresentada na segunda-feira 28 contra dois agentes da ditadura, o então tenente-coronel Mauricio Lopes Lima e o suboficial Carlos Setembrino da Silva, responsáveis por duas execuções em 1970.
Os atuais comandantes do Exército, general Eduardo Villas Boas, da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Nivaldo Luiz Rossato, e da Marinha, almirante de esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira, chegaram à patente máxima depois de encerrada a ditadura. Foram nomeados para os cargos atuais no início do segundo (e abortado) governo Dilma Rousseff, em 2015.
No início de maio, um parlamentar de partido do campo progressista, o campo varrido da política no golpe de 1964, esteve com Eduardo Bacellar. E diz ter ouvido dele que o interesse da Marinha é tocar seus projetos, como o da construção do submarino movido a energia nuclear. Se meter com política, não.
O cumprimento burocrático, pelo Exército, da intervenção decretada por Temer na segurança pública do Rio é apontado por este mesmo parlamentar como um indicativo de indisposição militar para entrar em cena. Temer quis colher dividendos eleitorais com o gesto, mas fracassou.
Na véspera do julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula pelo Supremo Tribunal Federal, em abril, o chefe do Exército, Villas Boas, publicou comentários dúbios no Twitter. Não eram exatamente a instigação de golpe, mas davam margem à interpretação de pressão para o STF não soltar o petista.
Um dia depois, Rossato, da FAB, divulgou uma nota crítica à postura do general. Sem dubiedades. “É muito importante que todos nós, militares da ativa ou da reserva, integrantes das Forças Armadas, sigamos fielmente à Constituição, sem nos empolgarmos a ponto de colocar nossas convicções pessoais acima daquelas das instituições”, escreveu. “Tentar impor nossa vontade ou de outrem é o que menos precisamos neste momento.”
Milicos à parte, as discussões sobre o que fazer em caso de Temer ser retirado do palco estão a todo vapor no Congresso e no Judiciário. Na quarta-feira 23, o Senado pôs para andar um projeto adormecido há dois anos sobre eleição indireta, restrita a parlamentares, no caso de o Brasil perder o presidente no segundo biênio do mandato deste governante.
Na sexta-feira 25, a presidente do Supremo, Cármen Lúcia, que é fã de Temer, tirou da gaveta uma ação que pode destravar a adoção do parlamentarismo. A ação é de 1997 e pergunta ao STF: o Congresso pode acabar com o presidencialismo por conta própria? Ou o povo precisa concordar, mediante plebiscito? O julgamento foi marcado para 20 de junho.
Os brasileiros já se manifestaram duas vezes sobre o parlamentarismo. Em ambas, a ideia foi surrada. Em 1963, o presidencialismo teve 82% dos votos. Em 1993, seu adversário teve 25%.
Temer se salvou no cargo no ano passado, no escândalo da JBS/Friboi, em boa medida com a classe política a alegar que era desejável evitar instabilidade e esperar pela eleição normal de outubro de 2018. Agora essa mesma classe política impedirá a população de eleger o próximo presidente, via parlamentarismo? Adiará as eleições? É o que se pergunta um emedebista no Senado.
A chance de o establishment político (MDB, PSDB, DEM etc) vencer em outubro é outro combustível do parlamentarismo. Em um recente relatório, a consultoria internacional Eurasia Group disse a clientes do “mercado” que a campanha de 2018 por aqui será antiestablishment, devido ao desencanto com a economia e a corrupção.
Pela direita, só quem se mostra competitivo é um extremista, Jair Bolsonaro. Que era a favor da greve dos caminhoneiros, mas na segunda-feira 28 gravou um vídeo e botou-o para circular no Facebook com um pedido para a categoria voltar ao batente. O motivo? “Quem aposta no pior, melhor é exatamente essa esquerda comunista que está aí”, disse.
Um líder da categoria onde Bolsonaro tem muitos fãs, Wanderlei Dedeco, do Paraná, esteve nesta terça-feira 29 no Congresso para debater a crise. À reportagem, disse ter gravado um outro vídeo, a defender que a paralisação continue.
Segundo ele, os caminhoneiros não podem retomar o serviço se apenas o preço do diesel for reduzido. O da gasolina também tem de cair, afirmou, “se não a população que nos apoiou não vai ganhar nada”.
Da tribuna da Câmara, Dedeco avisou que “a paralisação continua 100%”. E concluiu: “Tudo o que acontecer agora no Brasil de hoje em diante é com o presidente da Petrobras (Pedro Parente) e o presidente Temer”.

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