GANGUES CONVIVEM AO LADO DO CONGRESSO NACIONAL E NÃO SE ATACAM (?)

GANGUES CONVIVEM AO LADO DO CONGRESSO NACIONAL E NÃO SE ATACAM (?)
Polícia Civil mapeia áreas dominadas por gangues em cinco cidades do DF
CORREIO BRAZILIENSE



Pichações em muros da Expansão do Setor O, em Ceilândia: as numerações 18, 19 e 20 se referem às quadras dos adversários(foto: Isa Stacciarini/CB/D.A Press)
Disputa pelo controle de territórios e do tráfico de drogas aterroriza população e mata inocentes em Ceilândia, Santa Maria, Estrutural, Planaltina e São Sebastião . Duas crianças e um adolescente sem ligação com as gangues foram assassinados este ano
“O carro de vocês é uma ameaça aqui. Por favor, vão embora.” O pedido nervoso de uma senhora de 72 anos, moradora há três décadas da QNO 18 da Expansão do Setor O, em Ceilândia, revela uma rua sitiada pela guerra entre gangues. A rixa faz com que a vizinhança tenha uma rotina de medo. Mesmo quem não se envolve nas disputas territoriais precisa evitar as quadras em conflito. Quando precisam, não comentam onde moram. Se passa um carro em baixa velocidade, também é sinal de preocupação.“Imagina o desespero de você não poder sentar na calçada da sua casa, minha filha”, diz a mesma mulher, que pensa em colocar o imóvel à venda. “Um menino daquela casa em frente está jurado para morrer. Ele é o próximo.”

A rua é a mesma onde a menina Maria Eduarda Rodrigues de Amorim, 5 anos, foi morta a tiros, dentro da própria residência, em 21 de maio. Um dos irmãos dela, de 19 anos, ficou ferido na perna. Uma semana depois do crime, a polícia apreendeu três adolescentes suspeitos — um deles é fugitivo do sistema socioeducativo. Os agentes da 24ª Delegacia de Polícia (Ceilândia), no entanto, ainda procuram Walisson Ferreira da Silva, 21. Ele é o único maior de 18 anos que estava dentro do veículo dos acusados.

Um dia antes do assassinato de Maria Eduarda, moradores da QNO 18 atingiram um jogador de futebol amador de 17 anos, que estava no ponto de ônibus da QNO 17, com a irmã de apenas 12 anos. Ele não tinha relação com nenhum dos grupos, mas tornou-se alvo da guerra entre os rivais. Morreu na hora.


Maria Eduarda, morta com um tiro, dentro de casa, aos 5 anos: covardia(foto: Arquivo Pessoal)

Nas imediações, a regra é o silêncio. Quem aceita conversar sobre a guerra abre a porta de casa para não ficar na frente do portão. Ninguém quer ser reconhecido na comunidade por ter revelado o esquema das gangues. Nas ruas, as pichações nos muros identificam a presença desses jovens infratores. As três frases em sequência no muro de uma casa revelam a dominação. Na parede, consta: “Favela Chique 18 — 19 — 20 (em alusão às quadras rivais)”, “Os playboy nunca vão me entender… Favela” e “Quem sabe é nois”.

O Correio voltou à casa de Maria Eduarda menos de um mês após o crime, em 14 de junho. Ao chamar por alguém na grade rudimentar que tenta proteger o interior do local, uma criança apareceu assustada. Arregalou os olhos e disse que ali não era a casa da Duda, como a criança era chamada. Logo depois, um tio de Maria Eduarda apareceu. “Não vamos mais falar sobre o caso”, informou.

Dor compartilhada

A duas ruas abaixo de onde Maria Eduarda vivia com a família, mora Letícia*, 54. Há quase dois anos e meio, ela perdeu o filho, de 21 anos, assassinado pelo mesmo motivo: rixa das gangues. A família mora na QNO 18 há 30 anos, e o jovem andava com os garotos da mesma quadra que tinham rivais na QNO 17. “Ele trabalhava à noite como coletor de material reciclado em uma empresa no Setor P Sul. Saiu de casa às 17h30 e foi pego com um tiro nas costas. Desde então, eu vivo aprisionada, com medo do que pode acontecer com os meus outros dois filhos”, contou a dona de casa.
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O garoto gostava de ir ao shopping com a namorada. Depois da morte dele, a família da menina, com medo, mudou-se para o Riacho Fundo. A vítima também tinha planos de fazer um curso para ser vigilante. “Ele começaria as aulas em março, mas não deu tempo. Morreu em 21 de fevereiro de 2016. O meu filho queria subir na vida, tinha o sonho de comprar um carro. Depois disso, é um pedaço da gente que vai embora. Nunca mais você é a mesma. Ele dizia que tinha medo, porque andava com meninos que eram inimigos da 17”, revelou.

Crimes como trunfo


Na Expansão do Setor O, a Polícia Civil mapeou a existência de três grupos principais: 13 Terror (na QNO 13), 17 do Mal (QNO 17) e Expresso 18 (QNO 18). O delegado-chefe da 24ª Delegacia de Polícia, Ricardo Viana, explicou que a 13 Terror extermina gente da própria gangue que denuncia o outro. As outras duas têm rivalidade entre si. “Eles praticam assalto, roubo de veículo, tráfico de drogas, mas tudo na área deles. Só que são cruéis entre os rivais. Digladiam-se entre si. Essa briga tem mais de uma década, e a origem remete ao tráfico. Hoje em dia, eles continuam se confrontando”, detalhou.

Segundo o investigador, com a prisão dos principais chefes, adolescentes tentam assumir o poder. Em 16 de maio, agentes da 24ª DP prenderam um jovem de 19 anos suspeito de crimes de corrupção de menores, tráfico de drogas e apologia ao crime. Ele era monitorado, por meio das redes sociais, por causa de posts relacionados à gangue Expresso 19, outro grupo da região. Na casa do acusado, a polícia encontrou dinheiro, maconha, crack e rohypnol. O jovem transmitia ao vivo, com um adolescente, de 15 anos, o consumo de maconha.

A faixa etária dos envolvidos varia de 14 a 21 anos. Por isso, o trabalho de investigação é feito em conjunto com a Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA 2). Segundo o delegado Ricardo, a área também sofre influência do Entorno, como a cidade de Águas Lindas. “Não são meninos. São pessoas que têm histórico de passagem e querem mostrar supremacia, poder. Eles se vangloriam com as mortes. Para esse pessoal, a quantidade de mortes é como se fosse um trunfo”, ressaltou.

Moradora da QNO 18 da Expansão do Setor O desde 1985, Cristina, 63, aprendeu a conviver com a rivalidade. Por causa do tempo que vive na região, é chamada de “tia” pelos adolescentes e jovens. “Essa matança começou há mais ou menos 10 anos com os meninos da quadra 18 caçando confusão com os da quadra 17. E também tem quem mora na 19 mexendo com os da 18. Eles brigam por causa do endereço, de dívida de droga e roubo. Aí, acertam as contas entre si”, disse.

Pertencimento

A Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social não tem dados sobre a violência entre gangues no Distrito Federal. A pasta informou que a atribuição de desarticular e investigar gangues é da Polícia Civil. Neste ano, duas grandes operações, uma realizada em março e outra em maio, prenderam jovens e apreenderam adolescentes envolvidos em rixas. Sabe-se que as regiões de Planaltina, Ceilândia, Estrutural, São Sebastião e Santa Maria são as que mais sofrem com a atuação desses grupos rivais. Além dessas cinco cidades, também monitorava-se grupos rivais no Gama, em Taguatinga Norte (Chaparral), em Samambaia e no Plano Piloto.

Segundo a professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), Lia Zanotta, as gangues estabelecem-se em razão da procura de um pertencimento. “Os jovens precisam fazer parte e, para isso, aumenta a agressividade, que não advém de conflitos sociais, de brigas entre pessoas que se conhecem ou não, mas pela alta modernidade, que dá importância a como você aparece, como é o seu espetáculo”, ressaltou a também presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) (leia Três perguntas para abaixo).






















(foto: Arte/CB/D.A Press)


Rotina de medo em Planaltina


A Polícia Civil monitora pelo menos cinco gangues em Planaltina. Elas ficam nos bairros Jardim Roriz, Pombal, Buritis 2, Caveral, Buritis 3 e Arapoanga. A maior rivalidade, no entanto, é entre os grupos do Jardim Roriz e do Pombal. Nos muros, a identidade de Crime, Maldição e Morte (CMM) está grafada abaixo do Primeiro Comando da Capital (PCC). O delegado-chefe da 31ª DP (Planaltina), Pedro Luis de Moraes, garante, no entanto, que não há nenhuma célula da organização paulista na cidade. “A intenção deles é apenas demonstrar empoderamento”, alegou.

A região de Buritis 2 é a mesma onde Gabriel Santos Lopes, 11 anos, foi assassinado, por engano, quando voltava da aula de futebol com um grupo de amigos. O tiro saiu de uma arma apontada pelo carona de uma moto. Quando o Correio esteve na casa da família, em 14 de junho, a mãe não estava. A reportagem deixou dois telefones para retorno, mas não recebeu resposta. O pai de Gabriel morreu há cerca de 10 anos, e um dos irmãos cumpre medida socioeducativa. “Os disparos eram para outro menino, que estava com a vítima, mas, assim que ele percebeu, correu. Estamos monitorando e investigando o caso, mas não podemos falar muito”, argumentou o delegado.

                                                            Gabriel Santos Lopes, 11 anos, foi assassinado por engano em Buritis 2(foto: Antonio Cunha/CB/CB/Reprodução/D.A Press )

Quem vive na comunidade conhece a rotina de medo. Bárbara, 19, mora há 9 no Buritis 2, em frente a uma quadra de esportes. Ali, aprendeu o sinal do perigo. “Às vezes, uma pessoa grita e, do nada, esvazia e todo mundo sai. Aqui dá para ficar na rua até umas 20h. Depois, só ouvimos os comentários de tiroteio. A gente vive escutando que alguém daqui atirou em outro do Roriz (Jardim Roriz) e, aí, eles vêm para tirar a vida de qualquer pessoa. Quem estiver na rua, eles matam. É tipo uma vingança”, revelou.

Comerciante e moradora da região há sete anos, Ana evita circular nas quadras rivais. “O meu cunhado veio morar com a gente há quatro meses e o meu marido precisou sair com ele para o pessoal conhecê-lo. Se não, é considerado gente estranha na área, e eles eliminam mesmo. Dentro da quadra, ninguém mexe com ninguém. Mas eu não posso entrar no Buritis 3, por exemplo, pois eles acham que é uma pessoa levando recado”, lamentou.

Sofrimento

Há cinco anos, Carla*, 57, perdeu o filho para a rixa entre gangues. O jovem tinha, à época, 24. O crime aconteceu às 13h, quando a vítima seguia para a aula de violão. Dois homens passaram de bicicleta e atiraram pelas costas. Ele morreu na hora. Deixou duas filhas pequenas. “Aqui, a gente cria um filho para os outros tirarem a vida dele. Matam sem motivo nenhum. Sempre foi assim. É entregar para o Senhor e confiar em Deus. O pobre sofre demais, minha filha”, lamentou a jardineira, também mãe de uma jovem de 14 anos.

Depois de quase um ano, Márcia, 74, viveu o mesmo sofrimento da vizinha. Nesse caso, a vítima é o neto de 18 anos. “Ele foi ficar oito dias na casa da mãe, no outro bairro, antes de viajar. Aí, dois garotos chegaram e atiraram nele na rua. O alvo conseguiu correr, mas o menino acabou morto por engano. A violência aqui é demais. A gente vive trancada em casa”, queixou-se. Márcia mora no Buritis 2 desde 1980. “Vira e mexe um morre nesse setor. Antes, era só briga de um agredir o outro, mas, agora, todo mundo tem arma. Depois que isso aconteceu, vivo com medo, nervosa, estressada, achando que, a qualquer hora, pode acontecer com a gente de novo”, reclamou.

Crueldade

Professora do Departamento de Sociologia da UnB e coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança (Nevis), Maria Stella Grossi Porto ressaltou que a localização de gangues em cidades periféricas do Distrito Federal não livra o Plano Piloto e outras áreas privilegiadas de Brasília. “Temos tido episódios de demonstração de que camadas médias e até ricas da população também sofrem com a disputa de gangues e que, na maioria das vezes, acabam sendo até mais violentas. Existe um dinamismo nesse ir e vir de movimentos de grupos rivais e violência no DF”, afirmou.

Segundo ela, o crime organizado tenta se infiltrar nas rixas por disputas territoriais. Além disso, para a especialista, o acesso facilitado a armas também provoca episódios de violência mais intensos. “O fato de a violência caminhar para níveis tão cruéis está relacionado com o acesso às armas, a questão do contrabando e da forma com que as fronteiras estão sendo vigiadas. Isso faz com que as gangues busquem organismos para se defenderem”, observou.

* Nome fictício a pedido dos entrevistados.

Três perguntas para


Lia Zanotta, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB) e presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA)

Qual é o motivo para as gangues se estabelecerem?
Existe um paradoxo. Há uma procura da sociabilidade e do pertencimento a um grupo e, ao mesmo tempo, esse pertencimento significa busca de desafio, reputação, honra. Os jovens precisam fazer parte e, para isso, aumenta a agressividade, que não advém de conflitos sociais, de brigas entre pessoas que se conhecem ou não, mas pela alta modernidade, que dá importância a como você aparece, como é o seu espetáculo. No DF, a expressão gangue tem sentidos diferentes, como a ideia de conflito de quadras de classe média e de periferia. Na classe média, essas pessoas têm apoio, muitas vezes, da própria família. Na periferia, há condição de exclusão, em que o desafio e a agressividade se tornam mais fortes.

Por que esses grupos têm participação quase exclusiva de jovens?
Existe um conjunto de questões, mas, principalmente, a ideia de um individualismo exacerbado, seguido de uma autonomia completa, sem regra. O valor da autonomia excessiva é muito forte, porque a automodernidade impõe se mostrar, ter reputação e valores dominantes. É o caso de o homem, com domínio masculino, querer se mostrar valente, não ter medo. além da sensação de ressentimento de se submeter às regras, como as familiares e as normas da sociedade.
Até a década de 1990, as brigas entre grupos rivais acabavam em espancamento. Hoje, resultam em assassinatos. O que essa mudança reflete?
Existe uma mudança dos valores culturais e do desenvolvimento da criminalidade. Nas décadas de 1980 e 1990, não existia essa criminalidade organizada como agora. Não necessariamente essas gangues entram nesse tipo de criminalidade, mas agem de forma violenta, com a capacidade de atemorizar o outro e ser reconhecido por essa posição corajosa e por essa falta de sensibilidade. A própria criminalidade organizada reproduz a sensação de cada um por si e ninguém por todos, atrelada à condição econômica e ao status social.

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