Revista Época, da Globo, faz editorial contra “comandantes militares golpistas”

Revista Época, da Globo, faz editorial contra “comandantes militares golpistas”

DCM
24 setembro, 2018



Dois anos depois do golpe que tirou Dilma Rousseff do poder, só agora a Época publica um editorial claro contra golpes de estado, sobretudo com auxílio de militares – o que foi insinuado pela campanha de Jair Bolsonaro.

A precisão histórica exige que o governo implantado no Brasil a partir do golpe de 1964 seja classificado como ditadura civil-militar. Ao fim e ao cabo, resultado de movimentações militares a partir de 31 de março, o golpe teve o apoio de parcelas expressivas da sociedade — desde partidos políticos e empresários até organizações não governamentais. É fato também que órgãos de imprensa se manifestaram em defesa da necessidade da intervenção militar e da derrubada do governo legítimo do presidente João Goulart, como exemplificam os famosos editoriais intitulados “Fora!” e “Basta!” de extinto jornal carioca.

Meio século depois, setores majoritários da sociedade — a imprensa entre eles — reconheceram ter sido um erro embarcar na aventura golpista. “A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”, definiu editorial de 2013 do jornal O Globo, do mesmo grupo que edita ÉPOCA, quando reconheceu — sem meias palavras — ter cometido um erro ao apoiar o golpe de 1964.

As divagações atuais sobre os riscos de ruptura na normalidade democrática exigem repúdio claro e estridente. O comportamento de muitos dos atores sociais e políticos tem demonstrado indícios preocupantes de desvios. Comandantes militares e oficiais reformados que se imiscuem em temas institucionais com ameaças implícitas de rompimento da ordem democrática, políticos que debocham das instituições e pregam as mais variadas desobediências legais, candidatos que lançam desconfiança sobre a lisura do pleito, estimuladores do confronto físico entre militantes divergentes, enfim, esses pregadores do caos disfarçados de mantenedores da ordem devem ser relegados à insignificância que merecem por uma sociedade madura e comprometida com os valores da democracia.

Desde o fim da Guerra Fria, a maioria dos colapsos democráticos foi causada não por generais e soldados, mas por governos eleitos. Líderes subverteram instituições democráticas na Venezuela, no Peru, na Nicarágua, na Hungria, na Polônia, nas Filipinas, na Rússia, na Turquia e na Ucrânia. O retrocesso democrático moderno começa nas urnas.

Demagogos e autoritários, no entanto, não são capazes por si de destruir as democracias, apontam os especialistas. São os partidos políticos estabelecidos e as escolhas que eles fazem quando confrontados com demagogos e autoritários que decidem se as democracias sobrevivem. Os sistemas políticos precisam de partidos que coloquem valores fundamentais acima do ganho político imediato e de eleitores que se postem como cidadãos vigilantes.

A única forma aceitável de resolução de impasses é a aquela dentro dos parâmetros constitucionais, que consagram o estado democrático de direito, com o respeito às liberdades civis e aos direitos humanos e às garantias fundamentais definidas na Carta de 1988. É preciso dizer um altissonante “não” àqueles que querem romper as regras do jogo democrático, que negam a legitimidade dos oponentes, que cultivam a intolerância ou encorajam a violência, aqueles que admitem a restrição — mínima que seja — às liberdades civis. Basta do arbítrio que já macula o passado!

DCM

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