A luta de classes de cima para baixo no duelo Bolsonaro-PT



Eleições 2018

A luta de classes de cima para baixo no duelo Bolsonaro-PT

André Barrocal    04/10/2018   CARTA CAPITAL

Luta de classes
Esse tom de luta de classes será acentuado, mas já é realidade nas pesquisas
Empresários e ricos apoiam o ex-capitão de olho em vantagens fiscais, enquanto Haddad veste o figurino em defesa de pobres e trabalhadores
No último dia da propaganda na tevê antes da eleição no domingo 7, o PT atacou nesta quinta-feira 4 o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL). A campanha de Fernando Haddad lembrou que o deputado votou contra um fundo de combate à pobreza e o aumento do salário mínimo e a favor de reajustar o próprio salário. E concluiu: “Não vote em quem sempre votou contra você”.
A propaganda antecipou um plano que o PT guardava para usar só no duelo final contra Bolsonaro a partir da segunda-feira 8, um cenário projetado nas últimas pesquisas. Mostrar aos eleitores que há uma luta de classes de ricos e empresários contra pobres e trabalhadores. “Será um segundo turno altamente radicalizado. Vai exigir sangue-frio”, diz Ricardo Berzoini, do QG petista.
Esse tom de luta de classes será acentuado, mas já é realidade nas pesquisas. No Ibope, Haddad vence o rival no segundo turno por 53% a 28% entre quem ganha até um salário mínimo. E perde por 39% a 29% entre quem embolsa acima de cinco.
No quesito escolaridade, dá 49% a 29% para o petista entre os que cursaram o ensino fundamental. E 52% a 32% para Bolsonaro, entre quem faz ou tem faculdade. Entre negros, 46% a 36% para Haddad. Entre brancos 51% a 33% contra. No Nordeste, Bolsonaro perde de 58% a 27%. No Sul, ganha por 51% a 31%.
“Veja quem apoia o Bolsonaro hoje: é gente escolarizada e de alta renda, não é o povo. Quem se ilude pela aventura na política não é o mais necessitado.” Palavras do coordenador do programa de governo de Geraldo Alckmin (PSDB), Luiz Felipe D’Ávila, durante uma conversa com empresários na Associação Comercial de São Paulo, em agosto.
A maioria do empresariado está com o presidenciável da extrema-direita. A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil acaba de soltar um manifesto a favor dele, assinado pelo presidente da entidade, George Teixeira Pinheiro, empresário do setor hoteleiro no Acre, estado em que Bolsonaro apareceu de metralhadora na mão a pregar “fuzilar a petralhada”.
Em Santa Catarina, dois empresários divulgaram sermões bolsonaristas e anti-esquerda dirigidos aos funcionários. Denisson Moura de Freitas, dono da fabricante de ar-condicionado Kameco, e Luciano Hang, dono da loja de departamentos Havan.
A pregação de Freitas custou a Bolsonaro uma ação do PT no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na quarta-feira 3, sob o argumento de abuso de poder econômico. Neste ano, está proibida a doação empresarial de campanha, e a colaboração da Kameco seria doação disfarçada ao candidato do PSL.
Já Hang foi acionado na Justiça trabalhista pelo Ministério Público, que recebeu mais de 20 queixas. O juiz do Trabalho Carlos Alberto Pereira de Castro aceitou a ação e mandou Hang parar de intimidar os funcionários, sob pena de ser multado. “Voto de cabresto”, escreveu em despacho.
Acordo parecido foi feito no Paraná pelo MP com o dono da maior rede de supermercados local, a Condor. Em mensagem aos funcionários, Pedro Joanir Zonta pediu que não votassem na esquerda, para evitar “o fim da família”, o “agravamento da crise econômica” e a “transformação do Brasil em uma Venezuela”.
O empresariado tem razões para defender Bolsonaro. Paulo Guedes, o guru econômico ultraliberal do candidato, pretende reduzir a alíquota máxima de imposto de renda, conforme a Folha. E acha que a reforma trabalhista do governo Temer fez pouco. Seria preciso cortar mais encargos, ou seja direitos, como disse na Globonews em 23 de agosto. Eis o objetivo da carteira de trabalho verde-amarela proposta no programa de governo bolsonarista.
O vice do ex-capitão, o general da reserva Antonio Hamilton Mourão, diz e repete que o 13oé um problema, “uma mochila nas costas de todo empresário”, apesar de o candidato pedir-lhe para ficar quieto, pois “ele não tem malícia”, conforme Bolsonaro disse à Band em 28 de setembro. Guedes é outro que sumiu de cena por ordem do chefe, por excesso de sinceridade.
Essa postura bolsonarista e empresarial lembra o que um dos maiores ricaços do mundo, o norte-americano Warren Buffet, disse ao vivo na CNN em 2011: “Há uma guerra de classes nos últimos 20 anos e minha classe venceu”. E citou como os 400 maiores contribuintes norte-americanos ficaram mais ricos desde 1992 e ao mesmo tempo passarem a pagar menos impostos. “Então, se houve guerra de classes, a classe rica venceu.”
A fúria patronal no Brasil deixou desacorçoado um empresário, como se viu em um artigo publicado por ele na Folha na terça-feira 2, intitulado “Alô, companheiros da elite”. Para Ricardo Semler, “este é um país que precisa de governo para quem tem pouco, a quase totalidade dos cidadãos”, porque “nós, da elite sabemos nos defender”.
Nessa luta de classes de cima para baixo, o PT cumpre seu papel no script. “Eu sou trabalhista, eu acho que o trabalhismo deu muito certo no Brasil. O fascismo não vai dar”, disse Haddad na terça-feira 2, no Rio.
Um dia depois, em São Paulo, repetiu a dose. “Nós somos um partido com 2 milhões de filiados e queremos honrar a tradição trabalhista que no meu entendimento é o que vai tirar o país da crise. Apoiar o trabalhador, aumentar o poder de compra do salário, ampliar os empregos, é isso o que vai tirar o país da crise”.
A primeira reforma que ele promete fazer, se eleito, é tributária. “Os muito ricos no Brasil não pagam impostos, quem paga imposto é pobre. Os pobres precisam pagar menos para voltar ao mercado de consumo e reativar a economia. E compensar isso com os muito ricos pagando um pouco, que hoje eles não pagam nada.”
A intenção é acabar com a isenção de imposto de renda nos lucros e dividendos recebidos por acionistas de empresas como pessoas físicas. Essa mamata existe aqui, na Estônia e só, obra de Fernando Henrique Cardoso em seu primeiro ano no poder, 1995.
O Brasil tem 28 milhões de contribuintes, dos quais uns 70 mil recebem lucros sem pagar IRPF, segundo dados da Receita Federal. Um pessoal a embolsar coisas como 100 mil, 200 mil, 300 mil reais mensais.
Nas contas do PT, a taxação desses dividendos pode gerar 80 bilhões de reais por ano, dinheiro para investir em obras e no social. De quebra, haveria espaço para reduzir o IRPF de assalariados que ganhem até uns 5 mil reais, isenção que hoje está 1,9 mil reais. Com mais dinheiro no bolso, esses trabalhadores viveriam melhor e ajudariam o PIB com seu consumo.
“Se a gente acha ruim o governo Temer, a gente não pode imaginar o que é o Paulo Guedes no comando da economia do País, é um cara que não tem limites para cortar direitos da população, do trabalhador, da mulher, não tem limites”, disse Haddad perante metalúrgicos da Força Sindical em Curitiba. “É um neoliberal de um radicalismo que chega às raias da crueldade.”
As principais centrais sindicais uniram-se contra o deputado do PSL no fim de setembro. “O horizonte que ele nos apresenta é de um país marcado pela exploração do trabalhador, pela violência, pelo racismo, pela discriminação, pela repressão, pela dilapidação do patrimônio nacional, pelo desrespeito aos direitos humanos e pelo desrespeito aos direitos democráticos, garantidos na constituição, e ameaça de retorno a ditadura militar”, diz uma nota conjunta.
No provável segundo turno entre Bolsonaro e Haddad, as centrais também, ao que parece, vão cumprir seu papel no script da luta de classes de cima para baixo e marchar juntas contra o candidato da extrema-direita.
CARTA CAPITAL

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