Fuzis e pistolas comprados no Uruguai foram repassados a facções e usados em 12 crimes cometidos no RS e em SC

Fuzis e pistolas comprados no Uruguai foram repassados a facções e usados em 12 crimes cometidos no RS e em SC
GAÚCHAZH

Félix Zucco / Agencia RBS
Fuzil, além de maconha e balança de precisão, foi recolhido em 2016 com homem, em Porto AlegreFélix Zucco / Agencia RBS

Maconha serviria como moeda de troca entre criminosos de ambos os países
20/01/2019

O incremento do tráfico de maconha para o Uruguai gerou fluxo de violência inédito naquele país e na fronteira com o RS, como mostrou GaúchaZH em reportagem publicada no fim de semana. Mas não apenas lá. Na medida em que grande parte da droga enviada via Brasil é trocada por armas compradas por uruguaios, esse armamento chega ao território gaúcho. E abastece facções nas principais municípios do Estado, que usam fuzis e pistolas para matar rivais, cometer grandes assaltos e guarnecer bocas de fumo.
No Uruguai, o Grupo de Investigação da RBS (GDI) teve acesso a uma "lista de compras" de um conhecido traficante que atua em território uruguaio e brasileiro, o "doble chapa" Adalto Orisney San Martin da Costa. Ele está preso em Rocha (no litoral uruguaio), por roubo ao malote de uma casa de câmbio em Chuy (na fronteira com o Brasil). Foi capturado em flagrante. Ele também responde, no Brasil, por tráfico de drogas.Só que Adalto teve épocas sem registro de crimes contra ele.
Foi nesse período que teria adquirido meia centena de armas, legalmente, em lojas do Uruguai. Comprou 41 pistolas e 15 fuzis e jamais teve de dar explicação sobre isso. Até 2015, qualquer cidadão uruguaio podia adquirir armamento quase livremente naquele país, inclusive fuzis. A lei mudou e agora exige série de justificativas, mas antes bastava alegar motivos pueris aos vendedores — algo como "sou ameaçado" ou "preciso de arma para me defender contra assaltos".
O GDI inclusive usou esses argumentos para provar que armas ainda eram vendidas com facilidade, em 2018, no Uruguai. Acontece que Adalto não teria usado armas para mera defesa. Como já esteve envolvido em tráfico e roubos, a Polícia Nacional do Uruguai desconfiou que parte do arsenal de Adalto veio parar no Brasil. Acertou. O GDI conseguiu a lista de todas as armas compradas pelo uruguaio, legalmente.

De posse do documento, o GDI encaminhou aos policiais civis e federais brasileiros os números das armas. A pesquisa dos agentes comprovou que, das 56 armas adquiridas por Adalto, pelo menos 11 vieram parar no Rio Grande do Sul e uma, em Santa Catarina.
É o caso de um fuzil israelense com alto poder de impacto, apreendido em 7 de janeiro de 2015, em Pelotas. A arma, calibre 5.56 mm, estava com três bandidos capturados logo após assalto a uma agência do Santander. Eles fugiram para a propriedade de um deles e foram encurralados por PMs no distrito de Monte Bonito. Com os criminosos foram encontrados, além do fuzil, uma pistola calibre .40 (de uso restrito a polícias e com numeração raspada) e munição.

Roubo na UFPel

Uma prova da origem do material pode estar nos coletes à prova de balas apreendidos com os bandidos: eram da Polícia Nacional uruguaia. Foram achados também capuzes, máscara contra gás, miguelitos (pregos retorcidos usados para furar pneus), mochilas e bolsas usadas para guardar dinheiro e um Gol usado no roubo a banco. Naquele assalto, um cliente foi baleado. A pistola foi roubada em outro assalto, à Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Os ladrões não informaram como obtiveram as armas.
Foi também em Pelotas que outras duas armas de Adalto foram parar. Em 7 de março de 2015, PMs faziam patrulhamento noturno quando depararam com três homens em um carro, que fugiram à aproximação. Após perseguição, foram encurralados. Eles portavam um revólver Taurus calibre Magnum 357 e uma pistola Bersa calibre 9mm, além de farta munição. O carro era roubado.
As armas eram adquiridas, segundo a polícia do país vizinho, em lojas do Uruguai, por Adalto. Em 15 de agosto de 2016, um homem de 32 anos foi preso na Vila Nova Dique, em Porto Alegre. Com ele, foram encontrados um fuzil NEA calibre .30, três pistolas, dois revólveres, munições de diversos calibres e 18 quilos de maconha. A prisão foi feita por agentes da 12ª Delegacia de Polícia Civil, após investigação de dois meses. O fuzil fazia parte de um lote adquirido em 2014 pelo doble chapa no Uruguai.
Adalto está preso no Uruguai por roubo. No Brasil, a Polícia Federal o indiciou por tráfico de drogas e posse ilegal de arma de uso restrito em três inquéritos.

Nos dois países, dois assaltos

A troca de maconha por armas têm viabilizado que facções brasileiras cometam assaltos também no Uruguai. Pelo menos dois episódios recentes levantam pistas da entrada de criminosos daqui no país vizinho para cometer roubos.
O mais recente é o ataque a um blindado da Prosegur em Montevidéu, em 3 de setembro. Cinco pessoas ficaram feridas no ataque, em frente ao Palácio Legislativo. Os ladrões levaram o equivalente a R$ 1 milhão. Testemunhas falaram que o idioma falado por alguns dos criminosos era português.
A suspeita das autoridades uruguaias é que o PCC esteja por trás do assalto milionário, já que a própria Prosegur recebera alerta nesse sentido. Outro roubo, também com uso de arma de grosso calibre, aconteceu em uma casa de câmbio em Aceguá, em agosto. Os ladrões levaram uma mala de dinheiro. Duas semanas depois, foram presos cinco quadrilheiros suspeitos do ataque. Eles têm vínculos com uma facção do Vale do Sinos.


Contraponto
O que diz Antônio César Portela, advogado de Adalto San Martin da Costa:

"Essa (acusação) das armas é novidade, ele ainda não foi ouvido. Defendi ele da acusação de tráfico, não é um sujeito violento, tanto que conseguimos a libertação dele. Está preso no Uruguai agora por um assalto."

Adquiridas fora e apreendidas aqui

Doze armas pertencentes a Adalto da costa recolhidas pela polícia no RS e em SC
• Rio Grande, 24/8/2017Pistola Glock 9mm série Ybk522 
Crime: porte de arma restrito
• Caxias do Sul, 8/4/2017Pistola 9mm Bersa número de série D52889
Crime: porte de arma restrito
• Porto Alegre, 15/8/2016Fuzil NEA.
Crime: tráfico e receptação
• Novo Hamburgo, 26/2/2016Pistola Bersa 9mm série D70457
Crime: porte de arma restrito
• Pelotas, 7/3/2015Pistola Bersa 9mm série E87161
Crime: receptação
• Pelotas, 7/1/2015Fuzil 5.56 CSA
Crime: roubo a banco
• Pelotas, 22/5/2014Pistola 9mm Bersa apreendida
Crime: receptação
• Araricá, 25/9/2014Fuzil 223 Sporter série 5600225
Crime: roubo a banco
• Rio Grande, 11/9/2014Pistola 9mm Bersa
Crime: tráfico
• Pelotas, 11/4/2014Pistola 9mm S&W
Crime: receptação
• Florianópolis, 31/3/2014Fuzil 223 North Eastern NEA série 1513002230
Crime: porte ilegal de arma restrita
• Canoas, 1/1/2014Fuzil NEA calibre .223 série 151300200
Crime: roubo e porte


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