Poligamia: Uma é pouco, duas é bom, três é ainda melhor



Poligamia: Uma é pouco, duas é bom, três é ainda melhor

PLANETA      11/02/2019


Em Colorado City, lar da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (dissidência dos mórmons), a poligamia – o costume de ter várias esposas simultaneamente – é a norma. E ninguém lá parece incomodado com esse arranjo

Sala de estar de uma família fundamentalista em Colorado City. A cidade começou a receber os dissidentes polígamos dos mórmons a partir do final do século 19.
Para muitos norte-americanos, poligamia é um estilo de vida arcaico praticado no Oriente Médio e em alguns lugares da Ásia e por fanáticos religiosos em pontos distantes do oeste dos Estados Unidos. Os adeptos da poligamia (ou “casamento plural”) no país são marginalizados e sujeitos a processos criminais.
Mas para os membros da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (FLDS, na sigla em inglês), que vivem num remoto ponto do deserto, nas cidades gêmeas de Colorado City (Arizona) e Hildale (Utah), a poligamia não é um estilo de vida – é, na verdade, um prérequisito espiritual obrigatório para a admissão no céu e a mais elevada forma de salvação. Uma pesquisa recente revela que há cerca de 37 mil fundamentalistas, dos quais menos da metade vive em domicílios polígamos no Arizona e em Utah (estados do Meio-Oeste dos EUA). Suas crenças, enraizadas nos ensinamentos passados no século 19 por Joseph Smith, fundador da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mórmons), levaram os habitantes de Colorado City e Hildale a entrar em conflito com as modernas leis norte-americanas.
Joseph Jessop, um senhor grisalho de 86 anos, é um veterano daquele conflito. Ele se mudou para Short Creek (nome de Colorado City antes de 1960) na década de 1930, depois de sua mãe morrer e ele viver nas casas de diversos parentes. Jessop se fixou em Short Creek e casou-se. Então, desposou uma segunda mulher. E uma terceira.
Quando os EUA entraram na II Guerra Mundial, Jessop alistou-se nas Forças Armadas do país. Em 1944, enquanto ele ser via, o FBI fez uma incursão em Short Creek e levou suas mulheres e filhos. Eles foram liberados e voltaram à cidade alguns meses depois.
Em 1953, tropas estaduais do Arizona, apoiadas pela Guarda Nacional, invadiram Short Creek. Dessa vez, Jessop foi preso. A lembrança dessa invasão está tão fresca em sua memória hoje como no dia em que aconteceu.
Ele se lembra das tropas entrando na cidade com sirenes tocando e luzes piscando, enquanto os moradores se refugiavam no pátio da escola e cantavam hinos religiosos. Ele se lembra dos detetives particulares que o governador do Arizona à época, Howard Pyle, contratou para patrulhar a cidade e marcar as casas de polígamos em mapas usados pelas tropas. Ele se lembra de ter sido preso em Kingman, no Arizona, enquanto suas mulheres e filhos eram mantidos em “custódia protetora” em Phoenix (capital do Arizona). Para Jessop e outros membros da FLDS, o “Ataque a Short Creek”, como o incidente veio a ser chamado, provou que o mundo exterior queria destruir sua fé.
Em abril de 2008, quando autoridades do Texas invadiram a sede da FLDS na cidade de Eldorado, pessoas em Colorado City imediatamente se lembraram do Ataque a Short Creek.
“Está acontecendo de novo por lá”, disse Jessop enquanto cuidava de terras perto de sua casa, “nada além de perseguição religiosa. O que mais poderia haver por trás disso?” Ao redor dele, um grupo de jovens, rapazes e moças, trabalhava. Alguns arrancavam ervas daninhas, outros plantavam tomates. Uns poucos falavam aos seus celulares enquanto trabalhavam. Uma garota ouvia música em seu iPod. O vento, uma presença constante no deserto, levava o som de risos.
Jessop continuou. “Sou um patriota e tenho orgulho de ser um americano. Servi nas Forças Armadas durante a II Guerra Mundial. A Constituição americana é a melhor do mundo, mas não é melhor do que as pessoas que a administram.” Para ele, essas pessoas, quando o assunto é poligamia, estão erradas.
Mulheres fundamentalistas e seus filhos
Uma das mulheres que trabalhavam no campo (e que não quis dar seu nome) ecoou os sentimentos de Jessop e acrescentou: “É também sobre nossas crianças. Eles (o mundo exterior) as querem. Depois de Short Creek, eles tentaram colocá-las para adoção. Vendê-las a pessoas em Phoenix. A mesma coisa aconteceu no Texas: eles estavam se aprontando para fazer texanos ricos adotarem nossas crianças. Pessoas que não querem ter seus próprios filhos.” Arrancar ervas daninhas e capinar um milharal à mão – assim ela definiu a perseguição à FLDS. “Eles (os críticos da FLDS) são apóstatas (pessoas que abandonaram a religião que antes professavam – N. da R.). Eles viraram as costas para os ensinamentos do Profeta (Joseph Smith).”
E quanto aos políticos em Phoenix, Salt Lake City (capital de Utah) e Washington? Para ela, os políticos eram hipócritas ao condenar o casamento plural enquanto tinham casos e relações com diversas mulheres. Outra polígama chamou-os de “monógamos seriais”.
O agricultor Joseph Jessop, de 86 anos, que se estabeleceu no município na década de 1930.
Colorado City está na Arizona Strip, uma estreita faixa de terra entre a borda norte do Grand Canyon e a fronteira de Utah. O vento é constante ali. No verão, as temperaturas rondam os 40º centígrados e a terra ferve. No inverno, elas ficam abaixo de zero. Raramente chove, e, quando isso acontece, vem na forma de aguaceiro. Altas escarpas de rochas vermelhas dominam a cidade. Seu isolamento – está a cerca de oito horas de Phoenix e a cinco horas de Salt Lake City – é o que originariamente atraiu os polígamos para a região.
A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (LDS), comunidade mais importante, praticou a poligamia na maior parte do século 19. Esse costume era legal em Utah e causou conflitos constantes com líderes em Washington, que condicionaram a mudança do status político do território à renúncia à poligamia. Assim, em 1890, os líderes da LDS renunciaram à poligamia e, em 1898, Utah tornou-se Estado.
Mulheres preparam juntas as refeições.
De modo quase imediato, os mórmons polígamos que não concordavam com os líderes de sua igreja começaram a procurar um novo lugar para estabelecer- se. Esse lugar foi Short Creek. Em 1904, a liderança da LDS endureceu sua posição antipoligamia e prometeu excomungar os mórmons que persistissem na prática. O movimento de conta gotas dos polígamos rumo ao Arizona se tornou uma correnteza. E, de forma progressiva, eles se fixaram ao redor de Short Creek. No início dos anos 1930, Short Creek e suas cercanias eram a maior comunidade polígama dos EUA.
Os polígamos da FLDS afirmam que são os legítimos herdeiros da igreja criada por Joseph Smith, e que as pessoas que viraram as costas para a poligamia também viraram as costas para sua fé. Mas os líderes da LDS em Salt Lake City nem chegam a considerar os membros da FLDS como mórmons. A liderança política mórmon em Utah (os dirigentes do Estado são predominantemente mórmons) estão entre os mais duros críticos da FLDS. O procurador-geral de Utah, Mark Shurtleff, um mórmon, disse a um grupo de polígamos de Colorado City e Hildale em abril de 2008 que não tinha planos de invadir sua comunidade porque não possui os recursos para isso. Mas acrescentou que, se tivesse dinheiro e espaço na cadeia, ele os prenderia. São atitudes como essa que levam muitos membros da FLDS a se sentir traídos pelo que eles vêem como sua excêntrica família religiosa.
Warren Jeffs, o profeta (líder) da FLDS, foi condenado em Utah como cúmplice num caso de estupro, por ter arranjado o casamento entre dois primos – um adulto e uma adolescente. Jeffs está atualmente em julgamento por acusações similares, mas menos sérias, feitas no Arizona.
Na comunidade patriarcal de Colorado City, as mulheres não têm medo de emitir sua opinião, mas hesitam em dar seus nomes, temerosas de que qualquer coisa que digam seja usada contra elas quando o governo atacar a cidade da mesma forma que fez em Eldorado ou Short Creek.
“Não podemos ir ao Wal-Mart em St. George (a cidade grande mais próxima) sem sermos assediados por eles (mórmons)”, disse uma mulher da FLDS. Assistindo às brincadeiras das crianças ali perto, ela prosseguiu: “Os funcionários das lojas viram suas costas para nós. As pessoas no shopping nos dizem para deixar nossas famílias, ou dizem a nossas crianças para nos deixarem.” Ela observou que seu grupo não tem nenhum problema com católicos ou protestantes em St. George – apenas com os mórmons:
“Eles (os não-mórmons) nos deixam sozinhos, o que é tudo que desejamos.”
Companheiras falaram do assédio que suas crianças sofreram. Elas ensinaram seus filhos a não se referir a seu pai como “papai” ou a seus meio-irmãos como “irmão” ou “irmã”, para manter uma fachada de famílias separadas.
Jessop e outros membros da FLDS rejeitam relatos de abusos sexuais de crianças e casamentos de menores de idade, chamando-os de mentiras e perseguição religiosa. Eles sustentam que os índices de gravidez na adolescência, abuso de drogas e álcool e taxas de crimes são mais baixos na sua comunidade do que nas cidades vizinhas.
Uma mulher, membro da família de Jessop, disse: “Temos nossos problemas, mas aqui é muito melhor que Hurricane (cidade a cerca de 32 quilômetros de Colorado City), St. George ou Phoenix. Tudo o que queremos é o que eles (o mundo exterior) não nos darão: sermos deixados sozinhos. Eles estão tentando impor suas crenças a nós. Não estamos tentando impor nada a eles.”
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