Evo Morales, Brasil e a Interpol

Evo Morales, Brasil e a Interpol

TERÇA LIVRE

Evo Morales - Lula

Em abril um áudio viralizou nas redes sociais e fez tremer a Bolívia. Trata-se de uma conversa gravada entre o comandante Romulo Delgado e um coronel chamado Maximiliano Dávila, ambos membros das forças policiais bolivianas, atuantes no combate ao narcotráfico.
Na conversa, Romulo desconfia de Evo Morales, que não teria gostado de uma investigação em curso envolvendo chefes de polícia, provavelmente envolvidos com o narcotráfico. Delgado estava à frente das investigações que avançavam bem, mas de repente foi demitido e substituído. A ordem, teria partido do presidente Evo.
Vamos entender a história.

Quem é Maximiliano Dávila?

Maximiliano é diretor da Força Especial de Luta Contra o Narcotráfico (FECLN). Ele assumiu o cargo em fevereiro de 2019.
Maximiliano Davila

Quem é Romulo Delgado?

Romulo foi comandante da polícia boliviana. Assumiu o cargo em dezembro de 2018 e foi demitido no começo de abril, aproximadamente quatro meses depois.
Romulo Delgado
Na foto acima, Romulo aperta a mão de Evo durante a posse.
No evento estão presentes o vice-presidente Álvaro García Linera e o ministro de Governo, Carlos Romero.

Como o comandante Romulo foi demitido?

Quando Romulo recebeu a notícia que estava demitido, Evo Morales estava viajando. O vice-presidente Álvaro García Linera também estava fora do país. Quem assumiria a presidência neste caso seria a presidente do Senado, Adriana Salvatierra, mas ela também estava ausente. Neste caso quem assumiu como presidente interino foi o presidente da Câmara dos Deputados, Victor Borda.
Victor assumiu o cargo por apenas por 24 horas, no dia 9 de abril. Neste dia, demitiu Romulo e nomeou Yuri Calderón.

Por que Romulo desconfiou de Evo Morales?

Romulo ficou com a impressão de que Victor foi colocado apenas para demiti-lo de forma a não envolver diretamente o presidente Evo e isto ficou claro no áudio vazado.
O comandante investigava viagens de oficiais da polícia do país, que poderiam envolver ministros de Evo e que foram totalmente pagas por um traficante boliviano, envolvido com a máfia internacional, procurado pela Interpol, chamado Pedro Montenegro Paz e com ordem de extradição ao Brasil desde 2015.
primeira viagem foi do capitão Fernando Moreira Morón, diretor da Força Especial de Luta Contra o Crime (FELCC), à Cartagena das Índias, na Colômbia, com uma parada no Panamá. Ele partiu da Bolívia no dia 2 de março e retornou no dia 7 do mesmo mês.
Nesta viagem foram dezoito pessoas e custou dezenove mil dólares. Tudo foi pago pelo traficante Pedro Montenegro.
Entre as pessoas listadas na viagem, encontra-se também Kurt Germán Brun Rios, major de polícia, chefe do aeroporto de Chimoré, em Chapare na Bolívia, e membro da Força Tarefa Conjunta (FTC) de combate ao narcotráfico.
A segunda foi do coronel Gonzalo Medina Sánchez, à Bahamas, com escala no Panamá. Ele saiu da Bolívia em quatorze de março e voltou no dia dezenove do mesmo mês.
As viagens dos oficiais foram realizadas sem permissão oficial e até a escala no Panamá teriam sido pela companhia aérea BOA.
O capitão Fernando e o major Kurt deixaram-se fotografar junto com Pedro Montenegro, o traficante. A foto foi parar na mídia e o escândalo surgiu.
Fernando moreira - Pedro Montenegro - kurt german
O coronel Gonzalo tornou-se suspeito quando a polícia cumpriu um mandado de busca e apreensão numa empresa ligada ao traficante Pedro Montenegro: descobriram que ele havia condecorado o traficante por duas vezes, em 2017 e 2018, na presença de autoridades nacionais, e que era sócio dele em outras empresas.
Montenegro - condecorado
As investigações do comandante Romulo Delgado avançaram destacando que os três oficiais eram subordinados ao ministro de Governo, Carlos Romero, e ao vice-ministro de substâncias controladas, Felipe Cáceres.
Neste momento, o trabalho do comandante começava a sair da esfera policial e colocar sob suspeição os homens de Evo. E foi exatamente neste tempo que a “coincidência” aconteceu: Morales, Álvaro Garcia (vice-presidente) e Salvatierra (presidente do Senado) viajaram; Victor (presidente da Câmara) assumiu por 24 horas e substituiu Delgado sem qualquer explicação.
Romulo então ligou para o amigo Maximiliano e falou de sua desconfiança com Evo que estaria “bravo” com ele.
A ligação foi gravada por alguém e vazou pra internet: não dava mais pra esconder.

Quem é Pedro Montenegro Paz?

O traficante de cocaína, procurado pela Interpol desde julho de 2015, marcou suas atividades em Santa Cruz, na Bolívia e no Brasil.
Ele também usava o nome Pedro Hoffman Sainz, dependendo da ocasião, como para viajar.
A cocaína exportada pelo traficante tinha como destino diversas partes do mundo. Em 2015, autoridades brasileiras interceptaram o envio de 1,3 toneladas de drogas à Europa e emitiram um mandado de prisão.
Os amigos dentro da polícia, queriam que ele se tornasse juiz. A ideia não lhe parecia ruim, pelo contrário, ele sorria quando o coronel Gonzalo e outros lhe sugeriam tal feito. Montenegro viajou com frequência a Sucre, na Bolívia e teve diversos encontros com magistrados do Tribunal Constitucional.
O que mais chamava atenção era sua ligação com a máfia italiana conhecida como Ndrangheta: uma das maiores organizações criminosas do planeta e exportadora de narcóticos mundial. O grupo criminoso operou transportando toneladas de cocaína peruana e boliviana por terra para a região de Campinas, no interior do estado de São Paulo. De lá, a droga era enviada para os portos europeus, onde a máfia calabresa a recebia.
O traficante também abastecia uma organização chamada Narcosul, um braço do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo suspeita-se, Montenegro, comprou toda polícia boliviana e tinha suas atividades no país encobertas por ministros de Evo.
O procurado pela Interpol ainda obteve o título de advogado na Universidade Autônoma Gabriel René Moreno (Uagrm).
O ministro Carlos Romero afirmou no final do mês passado, que Montenegro continua na Bolívia e se move pelo país usando uma identidade falsa, no entanto existem rumores de que ele tenha fugido para a Argentina.
Um fato impressionante é que os dados do traficante foram apagados do sistema da Interpol, conforme afirmou o próprio ministro Romero, justificando o fracasso constante na captura do traficante.

Como funcionava a operação de Pedro Montenegro?

Um relatório da Unidade de Inteligência Antidrogas trouxe a informação de que Pedro coletava a cocaína em Santa Cruz com um grupo e que a droga era despachada para o Panamá com o auxílio de oficiais de polícia bolivianos.
Os chefes de polícia o ajudavam a passar com as drogas pelo aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz, em vôos que chegam a custar US$ 80.000. Eles marcavam os pacotes de narcóticos como seguros.
Os vôos eram com destino à Cartagena das Índias na Colômbia e à Bahamas, mas sempre com escala no Panamá, onde os pacotes marcados como seguros eram deixados e seguiam para os EUA ou outros destinos.
Em março, um informante que dois oficiais do serviço boliviano viajariam ao Panamá com 40 quilos de cocaína. Estes oficiais eram o coronel Gonzalo e o capitão Fernando.
rotas pedro montegro
Foi esta investigação que resultou na “coincidente” demissão súbita do comandante Romulo Delgado.

O que houve com os três oficiais?

O incidente da viagem dos oficiais resultou na abertura de um processo na Justiça Ordinária.
Questionados na justiça, coronel Gonzalo afirmou que viajou por motivos de saúdee capitão Fernando alegou ter visitado o carnaval colombiano.
Ambos foram exonerados da polícia por ter ligações com Montenegro, sabendo que ele era procurado pela Interpol desde 2015.
Gonzalo, Fernando e o major Kurt foram detidos preventivamente. O coronel e o capitão estão presos em celas da FELCC, enquanto o major foi enviado à prisão de Palmsola, um presídio de segurança máxima em Santa Cruz, com aproximadamente 3.500 detentos.
O ministro de Governo, Carlos Romero, reconheceu a autenticidade da gravação da conversa do comandante Romulo com o oficial Maximiliano e ela foi adicionada ao processo.

E com os ministros, o que aconteceu?

Até o presente nada, mas de repente…
O coronel Gonzalo afirmou que a viagem dele foi com a permissão dos superiores. Ou seja, o próprio ministro de Governo, Carlos Romero, e o vice-ministro de Defesa Social e Substâncias Controladas, Felipe Cáceres, nomeado para o cargo em 2006 por Evo Morales.
Isto equivale dizer que ambos estavam cientes de absolutamente tudo, com destaque para Felipe, que é além de vice-ministro, diretor da FECLN.
Carlos Romero, por sua vez esteve presente na demissão de Romulo e nomeação do substituto, em nove de abril e deixou claro que não havia qualquer queixa contra o comandante. Entretanto, contraditoriamente, no dia trinta, o ministro se irritou, acusou Delgado de ter vazado o áudio por vingança após ter perdido o cargo e mandou investigá-lo.
Romero também afirmou que a investigação do comandante não estava avançando e atribuiu os sucessos ao amigo Maximiliano. No entanto, este último é do FECLN e portanto subordinado direto de Cácere.
Pra piorar a situação, estes dois nomes seriam a única razão, o elo, para Evo estar “bravo” com Romulo, como ele afirmou na ligação gravada.
Existe ainda um fato: além do comandante ser demitido sem explicação, seu substituto, Yuri Calderón, não estava a sua altura.
Ficam no ar as questões:
  • Por que Evo Morales estaria bravo com Romulo Delgado?
  • Por que Carlos Romero mudou radicalmente a posição sobre a gravação da ligação?
  • De onde surgiu Yuri Calderón rápido assim? Justo na viagem do presidente, do vice e da presidente do Senado?
  • Por que o coronel Gonzalo afirmou ter consentimento de ambos superiores, sobretudo de um especialista na área, Felipe Cáceres, com mais de 10 anos de experiência, e de repente ninguém sabia de nada?
  • Romero e Cáceres nada sabiam da relação de seus subordinados com um dos traficantes mais procurados do planeta, e que fora condecorado dentro de seus portões por duas vezes?
  • Um dos traficantes mais procurados do planeta reuniu-se com juízes da alta corte do país, recomendado por oficiais e ninguém sequer suspeitou?
  • Ele formou-se advogado numa faculdade do país, com a intenção de tornar-se juiz, foi parar direto em reuniões de altos tribunais, como se isso fosse um procedimento comum, e isto não levantou suspeita de um único magistrado?

Como foi a operação policial no Brasil?

Aqui a operação chamada “Monte Pollino” da Polícia Federal condenou a quadrilha de traficantes a mais de 83 anos de prisão.
O grupo usava portos, principalmente o de Santos, para enviar drogas à Europa. Em 2015 os federais apreenderam 1,3 tonelada de cocaína e US$ 700 mil, durante a investigação.
Cinco chefões do tráfico foram condenados.
Nesta operação ficou constatado o envolvimento da quadrilha com a Ndrangheta, máfia italiana, uma gigante mundial do tráfico de drogas.
Em 2013 a quadrilha tentou enviar 44 quilos de cocaína para a Bélgica e um mês depois tentou novamente enviar 174 quilos. Os policiais conseguiram impedir o envio e ainda descobriram mais 20 quilos da droga em terra.

Onde o tráfico e a política se encontram?

A máfia chinesa, tem seus agentes infiltrados no Partido Comunista, que por sua vez possui laços estreitos com a máfia italiana, entre elas a Ndrangheta, da Calábria e Camorra, de Nápoles.“, afirma o jornalista Wellington Costa.
O empurrão inicial dado pelo brizolismo ao narcotráfico no Rio veio ser potencializado, em nível nacional, pelos 13 anos de populismo lulopetista, que simplesmente abriram as portas para o mercado de tóxicos no Brasil. Lula, no palanque em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, com Evo Morales, no início do seu primeiro governo, ostentando no peito um colar feito de folhas de coca: foi essa a imagem que percorreu o mundo do narconegócio, indicando o “liberou geral” dos petistas para a produção e a distribuição das drogas. Rapidamente o Brasil viu aumentar de forma fantástica a entrada de pasta-base de coca boliviana. O cocalero Evo Morales não fez por menos: ao longo dos governos petistas, simplesmente duplicou a extensão que os bolivianos dedicavam ao cultivo da folha de coca, a fim de destinar a maior parte da produção ao mercado de tóxicos brasileiro.“, escreveu o professor Ricardo Vélez Rodrigues, em 2016.
Cada um, tire suas próprias conclusões.
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