A vida da estudante baiana Nilda Cunha, morta aos 18 anos pela ditadura militar em Salvador

A vida da estudante baiana Nilda Cunha, morta aos 18 anos pela ditadura militar em Salvador

 
Publicado originalmente no A Tarde
Nilda caminhava amparada por um carcereiro quando viu o namorado, Jaileno, sentado num canto, sozinho. Conseguiu se desvencilhar de quem a segurava e foi até ele. Não conversaram muito. “Jaileno contou depois que ela sentou ao lado dele e disse: eles acabaram comigo”, conta Leônia Cunha, irmã de Nilda. Estavam na Base Aérea de Salvador, para onde alguns presos políticos eram levados naquele tempo. Depois de falar, precisou seguir caminho. Era entre agosto e novembro de 1971. Foi a última vez que se viram.
Jaileno Sampaio, 21 anos, e Nilda Cunha, 18, foram presos na madrugada de 20 de agosto daquele ano, num prédio na Pituba. A prisão foi resultado da primeira fase de uma das maiores operações da ditadura militar na Bahia, a Operação Pajussara, que juntou dezenas de militares num cerco que foi da avenida Octávio Mangabeira, na orla, à rua Minas Gerais, onde fica o edifício Santa Terezinha.
Eles integravam o Movimento Revolucionário Oito de Outubro, o MR-8, mesma organização do casal Carlos Lamarca e Iara Iavelberg, que tinham os rostos estampados em todo canto em cartazes que sublinhavam as palavras “terroristas procurados”. Por questões de segurança, Lamarca e Iara vieram para a Bahia, junto com o historiador José Carlos de Souza, também do MR-8, que lembra: “A organização decidiu que eles viriam para cá porque o Rio de Janeiro estava cercado. Lamarca vivia lá como prisioneiro, não podia sair, ficava guardado. A Operação Pajussara foi criada para caçar Lamarca e matou vários pelo caminho”.
Mudar o mundo
Nilda, criada em Feira de Santana, era a caçula numa família de cinco meninas. Entre as irmãs, Leônia era a única interessada em política. Fez parte do Partidão e da Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), organizações de esquerda contrárias ao governo militar. “Eu levava uns companheiros lá para casa, a gente falava sobre política. Eu pedia a Nilda para fazer um cafezinho e ela dizia ‘eu sei, vocês querem conversar de política e não me deixam ouvir’, e ria. Eu queria mudar o mundo”.
Mas não sozinha. Tinha medo de que a irmã se deixasse levar pelo brilho da classe média e esquecesse do mundo: “Ela era extremamente meiga, muito doce. Um anjo da paz. Não queria ela metida com aquela burguesia nojenta de Feira, como era em todo interior, não queria que se aproveitassem da beleza dela. Eu me sentia um anjo da guarda”. Passaram a discutir problemas sociais e políticos. “Era uma época em que a gente falava sobre isso, a esquerda estudava”. Leram tanto que não tinham mais como voltar atrás.
“Os bailes de debutantes eram cheios de glamour, muito chiques, várias meninas desfilavam com seus vestidos de gala. Depois da festa, perguntei a ela se ela gostou. Ela disse: ‘Leo, eu senti vontade de chorar’. Viu que era muita futilidade nesse país de tanta pobreza”, lembra Leônia. Ainda hoje tenta se livrar de um sentimento de culpa que volta vez por outra, a sensação de que, não fosse por ela, Nilda talvez nunca se interessasse por assuntos de esquerda. “Eu me culpei, sim, e outras pessoas também me culparam”.
Em 1969, a família veio para Salvador. Por aqui, Nilda, que ainda cursava o ensino médio, conciliava a escola com o trabalho de bancária. Entrou num grupo de estudos de “filosofia marxista”, como diz no depoimento que deu à Polícia Federal. No meio dos colegas, conheceu Jaileno. “Eu fiquei em Feira, não vim logo para Salvador. Nilda começou a fazer a política dela sozinha. E aí, ela foi adiante. Eu fiquei e ela foi”, comenta Leônia.
Jaileno, “um rapaz muito calado, na dele”, descreve Leônia, fazia parte do MR-8. O jornalista Denilson Vasconcelos, ex-integrante da organização, explica que o grupo trabalhava com educação. “A gente fazia trabalho de bairro, em comunidades, conversava com moradores, distribuía panfletos. Era um trabalho chamado ‘camadas populares’”. O MR-8, diferentemente de outras organizações espalhadas pelo Brasil, não dava tanta ênfase à luta armada.
O objetivo, explica José Carlos, era mobilizar a população. “A gente queria promover uma luta de massas, não fazer um movimento só de classe média. Mas a ditadura, a inteligência da ditadura, acabou nos levando à luta armada. Acho que nosso erro foi tentar combatê-los naquilo que eles sabiam fazer melhor, que era usar armas”.
Depois de entrar no MR-8, Nilda era às vezes Adriana, às vezes Clarisse. Jaileno era Carlos, e assim ficou conhecido entre Leônia e as outras irmãs. Dizer o nome verdadeiro era um perigo. No começo, Nilda ajudava Denilson a produzir o jornal Avante, distribuído nos bairros que visitavam. “Eu era responsável por coordenar a imprensa, que é um faz-tudo. E aí Nilda passou a dar aulas em bairros pobres, como Vila Natal, São Caetano, Barro Branco… Era um trabalho de aproximação com a comunidade”. Entre as aulas, tentava recrutar um ou outro aluno mais interessado em política, o que não deu muito certo. À polícia, Nilda disse que não arrumou um novo recruta sequer.
Em março de 1971, uma integrante do MR-8, namorada de Denilson na época, se entregou à polícia. Na queda, levou muitos outros. No mesmo mês, como diziam naqueles tempos, Denilson caiu. Ali começou o desmonte do grupo na cidade. “Depois eu a vi presa, e só. Convivi com Nilda pouco tempo. Naquele período você não convivia muito tempo com as pessoas, não durava muito… Mas o pouco tempo em que convivi, vi que era uma pessoa muito doce, uma menina muito bonita e muito doce”.
Reconhecida por namorar Jaileno, que já tinha prisão preventiva decretada, Nilda começou a ser seguida. Leônia lembra que a preocupação era tanta que qualquer “oi” de um estranho que encontrava pela rua poderia soar como ameaça. “Um dia, ela chegou em casa e contou: ‘Leo, você não sabe o que aconteceu. Eu estava no ônibus e um cara puxou a minha bolsa. Eu comecei a lutar com ele achando que era da repressão’. Mas era só uma pessoa dizendo a ela a melhor posição de segurar a bolsa”.
Em agosto, já com Iara e Lamarca escondidos sertão afora, José Carlos foi preso. Pouco antes, como estava com viagem marcada para junto de Lamarca, contratou uma caminhonete e doou os móveis que tinha para Jaileno, que, naquela época, morava com  Nilda e uma irmã dela, Lúcia Bernadete Cunha. José Carlos preferiu nem saber o endereço, deixou que Jaileno resolvesse com o motorista. “Por questões de segurança, era melhor não saber para, em caso de prisão, não abrir”, diz ele.

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